quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Ehali? Salama?

Queridos Amigos dos Leprosos
“Ehali? Salama?” (Novidades? Tudo bem?)

Escrevo de novo para vos dar novidades sobre o trabalho que vou desenvolvendo nesta linda terra de Moçambique, onde a Lua não é mentirosa (em C ela cresce e em D ela diminui).

Deixem que vos conte um episódio concreto desta minha aventura: No dia 14 de Maio fomos à concentração dos Leprosos em Marririmue, que desde Janeiro esperavam a nossa visita, mas as chuvas, que dificultavam os caminhos, não nos deixavam lá chegar. Chegámos lá e dividimos trabalho, o Enf. Paulo atendia os doentes em tratamento e via quem ia ter alta, e eu consultava os casos novos ou quem suspeitava de alguma mancha.

E assim foi, comecei a consultar primeiro as mamãs, papás e crianças que há muito tempo suspeitavam de suas manchas, mas que eram manchas que davam comichão e escamavam, o que não acontece nas manchas de lepra. Depois, e como estávamos ao lado da escola primária, começavam a vir crianças com ou sem manchas, mas que só queriam ser vistas por “mucunha” (branca), e já ficavam felizes se eu lhes desse 5 minutos de atenção. Consultei nessa manhã cerca de 20 pessoas, examinando cuidadosamente e com carinho cada uma delas, conversando um pouco em macua e um pouco em português (com ajuda de tradutor). Vi muitos rostos e muitos sorrisos e muita gente contente por estar livre da doença. Fiquei satisfeita por ver tanta gente sensibilizada para observar as suas manchas. E felizmente nenhuma destas 20 pessoas tinha lepra. Naquela zona os casos novos estão a diminuir graças ao trabalho do voluntário da saúde, que todos os meses vem a Mecubúri buscar os medicamentos e o sabão, e carrega tudo na sua bicicleta andando cerca de 30 Km para cada lado.

Mesmo assim, no fim do 1º Trimestre de 2003, as nossas estatísticas indicaram mais de 100 doentes em tratamento, só no Distrito de Mecubúri, com mais entradas de casos novos do que saídas de doentes com alta.

É urgente continuar a incentivar os doentes para o tratamento, e por isso agora que começou o frio estamos a distribuir mantas, e é necessário dinamizar os próprios Leprosos para a observação das suas famílias.

E porque sozinha não consigo pensar e dinamizar tudo, esta semana estou a frequentar uma semana de Estudos sobre a Igreja e a Pastoral da Saúde, com o P. Vítor Feytor Pinto e o P. Aires Gameiro, dois oradores muito bons e cativantes.

Penso que isto me vai ajudar a desenvolver novos trabalhos e dinâmicas com os nossos irmãos Leprosos, não só alimentada pela riqueza do curso mas também pela troca de experiências com outros missionários e concretamente com um representante da ALEMO – Associação de Leprosos de Moçambique, que em Pemba fazem um grande trabalho de reinserção.

Conto também com o vosso apoio, quer físico, se alguém quiser mandar sugestões, vir fazer-me companhia ou substituir-me quando me for embora; quer espiritual, com a vossa oração.

Um muito obrigada a todos e “tá-tá” (Adeus).


Vossa amiga Ana Margarida Azevedo

(Voluntária da APARF)

Ana Margarida

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Mecubúri

Cá estou eu em terra de Missão a trabalhar junto dos nossos irmãos, com eles e para eles.

Tal como referi na primeira notícia, vim para trabalhar em 3 áreas e já comecei activamente nas 3 (Ensino, Pastoral e Saúde).

Sou professora de Matemática de 3 turmas da 8ª classe, na Escola Secundária de Mecubúri. Tenho cerca de 190 alunos e dou 15 aulas por semana (5 a cada turma).

Na Pastoral, dou catequese a 15 meninas do Lar das Irmãs onde estou a viver. Este Lar acolhe, actualmente, 37 meninas para estudarem, há meninas da 6ª à 10ª classe.

Além disso estou, com a Irmã Sandra, a trabalhar na Pastoral da Juventude, e com a Irmã Cristina, na Pastoral da Saúde.

Quanto ao trabalho com os Leprosos (que deve ser onde mais querem saber o que faço) já me integrei com o Hospital Distrital de Mecubúri e trabalho em equipa com o Enfermeiro Paulo, o responsável do Serviço ELAL/ELAT (Estratégia de Luta Anti-Lepra/Estratégia de Luta Anti-Tuberculose).

Nas 2 primeiras concentrações de Leprosos apenas assisti ao trabalho do Enfermeiro, para me integrar com os seus métodos de trabalho. Na 3ª concentração, em 2 zonas vizinhas, já consultei doentes e preenchi o seu registo clínico, ainda acompanhada do Sr. Paulo.

Na 4ª concentração já fui sozinha, só com a Irmã Assunção. Consultei e detectei casos novos, fiz o seu registo clínico e expliquei-lhes os cuidados que deviam ter e como tomar os medicamentos, claro que contei com a ajuda do Agente Pastoral da Saúde para traduzir o que eu dizia para Macua, porque algumas pessoas não entendem senão um Bom Dia em português.

Além disso estou a preparar uns folhetos para dar mais informação sobre a Lepra aos doentes e aos Agentes Pastorais de Saúde.

Apesar do trabalho ser muito a vida é mais calma do que em Portugal, sem televisão e quase sempre sem luz, deitamo-nos cedo e depois acordamos pelas 5h00 com os galos a cantar.

É uma vida mais saudável.

Ana Margarida
(Voluntária da APARF)

sábado, 9 de dezembro de 2017

“Por um Mundo sem Lepra” em Mecubúri

A jovem Ana Margarida Azevedo é umas das voluntárias da APARF. Esta jovem, com 23 anos, partiu para Moçambique, como voluntária para trabalhar, durante 1 ano, no projecto “Por um Mundo sem Lepra”.

O Jornal “O Amigo dos Leprosos” entrevistou-a para saber quais as suas motivações e objectivos.
Jornal – Ana quais são os motivos que te levam às missões como voluntária?

Ana Margarida – Desde criança sempre estive muito ligada, de forma muito activa, à Igreja. Era a catequese, o coro, a ajuda nas festas da Paróquia, etc.

Aos 16 ou 17 anos comecei a querer dar mais de mim, a comprometer-me com os ideais e a fé que tinha aprendido e vivido até aí. Comecei então a dar catequese e nessa altura formamos o Grupo de Jovens (um grupo de Pré-encontro do Movimento Encontro de Jovens Shalom). Foi também nesse ano que fui pela primeira vez a Taizé, uma aldeia ecuménica de oração, em França.

Por algum tempo isso pareceu-me suficiente, mas, em Janeiro de 1998, fiz o Encontro Inicial no MEJ Shalom, o que também dá um grande impulso para o compromisso cristão, para “Espelhar o rosto de Cristo jovem”. E no início de 1999 (aos 19 anos) as minhas interrogações voltaram: “Será que é só isto que Ele quer de mim?”

Eu tinha de descobrir a minha vocação, então iniciei uma caminhada de Acompanhamento Vocacional, com um padre da Comunidade Shalom. Mas tornou-se incompatível namorar e fazer o acompanhamento ao mesmo tempo, então abandonei esse discernimento, sem porem esquecer a minha inquietação.

Só agora associo que esse chamamento ocorreu após ter recebido o Sacramento do Crisma, a 18 de Maio de 1996 (4 dias antes dos 17 anos).

Mas como descobri a minha missão?

No Movimento Shalom assumimos o compromisso de ler e meditar a palavra de Deus diariamente. Sei que não sou muito fiel a esse compromisso, mas tento cumpri-lo.

Então, nessa altura em que andava mais inquieta com o chamamento a “fazer algo mais”, numa noite, na minha oração antes deitar, pedi que Deus me desse um sinal ou me ajudasse a encontrar a resposta... e abri a Bíblia numa página qualquer. Calhou-me a leitura de Marcos 1, 40-45 sobre a “Cura de um Leproso”.

Nesse dia, e eu acredito que nada acontece por acaso, tinha chegado no correio o Jornal “O Amigo dos Leprosos” para a minha mãe, que já há alguns anos participa na campanha do Dia Mundial do Leproso com os alunos da Escola onde lecciona, mas eu dei-lhe o jornal sem ligar a nada.

E, ao ler a leitura sobre o leproso, senti a resposta!

O meu mano Jesus respondeu à minha pergunta.

No dia seguinte peguei no Jornal e fui a lê-lo no comboio. Este número falava justamente dos projectos que a APARF apoiava para combater a Lepra e todas as lepras, por esse mundo fora.

Senti, no coração, que era chamada para ir ajudar esses nossos irmãos doentes. E, poucos dias depois fui à APARF e disse que queria ir para as missões num projecto da Associação. 

Radical? Talvez! Eu tinha apenas 20 anos.

Mas sinto-me bem e aqui vou eu. É o projecto de Deus para mim, pelo menos por um ano.

Jornal – O que vais fazer na Missão?

AM – Levada pelo chamamento que senti, o meu objectivo principal é Trabalhar Com e Para os Leprosos.
Para isso fiz um curso de Leprologia para pessoal paramédico (curso intensivo de 40 horas no Sanatório de Fontilhes – Espanha), onde aprendi a prevenir, detectar e acompanhar o tratamento do bacilo de Hansen (a Lepra).

Porém as dificuldades destas pessoas são mais que muitas, e não se consegue tratar uma doença sem corrigir primeiro as suas causas. Então, eu vou fazer o que for preciso.
Penso, ainda sem conhecer na prática a realidade, que vou trabalhar em três vertentes:
Saúde
Detectar novos casos de lepra
Iniciar e acompanhar o tratamento
Formar para a prevenção e detecção da doença
Educação
Tentar colmatar a falta de professores
Leccionar Matemática
Pastoral
Dar catequese
Integrar-me na comunidade católica da zona

Jornal – Que mensagem queres deixar aos jovens em geral e à Juventude de Raoul Follereau em especial?

AM – “Jovens, recusai pôr a vossa vida na garagem.” (Raoul Follereau)

Se sentirem uma inquietação a fazer mais pelos outros, alimentem essa ideia.

É na juventude que se pode arriscar a ser Feliz do modo como sonhamos.

E se fores chamado a um compromisso mais radical, não tenhas medo, nem lhe cortes os pés antes de crescer. Coragem! Força! Vai em frente!

Quando me dizem: “Eu não tinha coragem”. 

Apenas respondo: “Não é coragem, é Projecto de vida. Para «trabalhar para comer e comer para trabalhar» vou ter muitos anos depois.” Claro que não penso que a vida futura seja só isso, mas é na flor da juventude que temos garra para desafiar o Mundo. 

Por isso o meu momento é Agora. E o teu, já chegou?

Ana Margarida
(Voluntária da APARF)

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Niassa

Dos apelos feitos surgiu uma nova voluntária, Marta Bernarda.

Marta Bernarda regressa ao Niassa, onde se encontra ao serviço dos doentes de Lepra.

Tem a seu cargo leprosos, crianças desnutridas e outras lepras que tocam profundamente a sua sensibilidade.

Com ela estamos nós, a dar-lhe apoio moral e material.





terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Dia Internacional do Voluntariado

A APARF agradece a todos os voluntários que têm colaborado na luta contra a lepra e todas as Lepras e lança o desafio para novos voluntários.

Quereis fazer um projecto de voluntariado com a APARF?


Convite

Sou uma mulher pequena (1,51m), magra, tenho quase 50 anos e as rugas da idade que me dão o estatuto de “mamã” – aqui um termo de grande respeito. É frequente cumprimentar alguém que me responde “Boa tarde, mamã”. Esta manhã passei por um grupo de gente que cumprimentei; ia apressada mas ainda consegui ouvir o comentário de um homem que dizia para o grupo: “é tão bonita...”

Ora, para um africano, uma branca, mamã, magra, com uns velhos jeans e ar desportivo não é bonita “coisíssima nenhuma”! Este “bonita” é a expressão do muito carinho, do amor que as gentes daqui manifestam.

Há dias, também, passei pelo recreio de uma escola, cheio de crianças; ia acompanhada de um amigo e ouço uma das crianças dizer uma frase em dialecto do qual só captei a palavra “mucúnha”, que significa branco/branca. Perguntei ao meu amigo o que estavam a falar da mucúnha.

-Estão a dizer “ali vai a nossa branca”.

Finalmente, em Mepapa um dos nossos doentes dizia “quando ela for embora todos vamos ficar órfãos”.
Pergunto: aí em Portugal vocês ouvem coisas tão lindas? E não haverá, entre tantas pessoas de bom coração, ninguém que queira vir viver, ouvir, sentir a vida destas gentes?

A paisagem é linda, o povo de uma afabilidade ímpar..., tantas coisas que se podem fazer aqui enquanto se é feliz!

Daqui envio um convite para que alguém de boa vontade participe directamente num Mundo Sem Lepra e venha aqui viver uma experiência tão rica que não tenho palavras para a descrever...


Se você quer fazer o bem para aqueles que verdadeiramente o necessitam.
Se você quer disfrutar de uma grande liberdade interior.
Se você quer viver no coração enorme e muito belo de África,
VENHA DAR A SUA AJUDA PARA
UM MUNDO SEM LEPRA,
VENHA PARA O NIASSA!
Vai receber muitíssimo mais do que tudo o que der.
Vai fazer uma  aprendizagem de muitas experiências bonitas.
Vai bendizer muitas das horas dessa vivência.

 Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)


domingo, 3 de dezembro de 2017

Programa de Nutrição

(…) Por falar em criancinhas – iniciei o meu programa de nutrição. Não tive pressa de o iniciar antes de Fevereiro, porque, tradicionalmente este mês e o de Março são meses de Fome generalizada – ainda não se fez a colheita de milho e a farinha deste (Xima) juntamente com alguma verdura é a alimentação diária. Neste tempo vivem de alguma reserva (pouca) de farinha e de mandioca seca… Daí que a má-nutrição dos bebés e mamãs está mais agravada do que habitualmente.

Todas as manhãs preparam-me uma fogueira e sou eu que cozinho um panelão de papas que distribuo por 23 crianças mais as 23 mães. Já pesei as crianças todas e daqui a 2 semanas vou fazer nova pesagem. Tenho crianças com um ano que pesam 6kg. e com 15 mese – 6,7kg…

Infelizmente ainda estou muito às escuras nesta matéria e trabalho muito em termos comparativos com os dados que tenho – os parâmetros aqui são muito diversos dos europeus. As crianças não nascem com o(s) mesmo(s) comprimento(s) e peso(s) das nossas… Também estou agora a fazer fichas individuais para os “casos mais sérios”.


Estou certa de que estamos a contribuir para o crescimento de alguns futuros homens e mulheres moçambicanos com uma boa dose de calorias, proteínas, vitaminas e sais minerais. Curiosamente, onde observo resultados quase imediatos é nos 3 velhinhos a quem também dou esta farinha (1 lata de 1kg/semana, eles próprios cozinham). Acresce que, no caso das crianças, também a mente delas vai crescer melhorada (uma das causas do “retardamento” mental que se verifica é a falta de iodo e a subnutrição).

Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

A Ana Maria prepara papas para crianças doentes e desnutridas

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

As Crianças

(…) Passo a explicar: as chuvas originam a entrada de toda a espécie de bicharada nas cubatas; o capim alto e verde é um habitat óptimo para toda a espécie de insectos; o calor e a humidade são o laboratório ideal para a proliferação de germes, bacilos, etc., agravados pela falta de higiene. Diariamente, passam-me pelas mãos cerca de duas dezenas de crianças (às vezes mais) cheias de eczemas, feridas, crostas, úlceras, borbulhas, dos tornozelos até à cabeça (incluída). As borbulhas “rebentam” e deixam uma ferida aberta, em carne viva, tal e qual uma queimadura, e que é dificílima de sarar! Estas chagas vão de 5mm a 5cm de comprimentos. Dizem-me que a origem destas “queimaduras” é devida a um tipo de aranha pequenina que existe nesta época das chuvas (capim e casas) e que por onde passa ou toca, “queima”. Francamente não sei. Sei que é uma batalha tremenda minorar o sofrimento destas criancinhas que ainda por cima são de uma coragem física espantosa.

Passo a vida rodeada de crianças pequenas que me seguem religiosamente por toda a aldeia; afago-as, trato delas, de vez em quando dou-lhes um rebuçado e é claro que me adoram… e eu retribuo! Depois, temos o programa de nutrição dos “mais pobres dos pobres”.

Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

“DEI ALTA A 11”

Alegra-me comunicar-vos que “dei alta” a 11 (onze) dos nossos doentes. O número é pequenino, mas podem crer que tem muito significado, porque é extremamente difícil curar/sarar as úlceras dos leprosos. O primeiro a quem consegui curar duas perfurantes plantares (úlceras na planta do pé, muito profundas) encheu-me de um grande orgulho, porque eu nunca acreditei que fosse possível… É certo que estes 11, de vez em quando têm uma mazela ou outra, que precisam de ser “vigiados” (especialmente os olhos precisam de manutenção regular). É certo também que a estação húmida favorece um pouco os doentes – no tempo seco, devido à falta de hidratação da pele, as gretas, as infecções e as úlceras são mais fáceis de acontecer. Mas, se fiquei mais “leve” de trabalho – embora continue com outros doentes difíceis e renitentes, por outro lado fiquei sobrecarregada de trabalho infantil. (…)

Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

A Ana Maria a cuidar dos doentes

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O tempo das chuvas – um tipo de exercício físico diferente!

(...) Está a chegar o tempo das chuvas – é fundamental arranjar a “picada” (estrada) de acesso à aldeia que normalmente neste tempo fica intransitável a viaturas, mesmo as 4x4 como a nossa. Esta picada tem buracos e valas com quase 1 metro de profundidade. Quando chove – e aqui chove “a sério”, torrencialmente – a estradinha transforma-se num mar de lama. Por essa razão, uma vez por semana junto-me a 7 voluntários e durante as primeiras 4 horas da manhã carregamos a pick-up com tijolos – paralelepípedos compactos e pesados que depois são descarregados nos buracos ou valas até ficarem cheios. Garanto-vos que é um belo exercício físico!

Também por causa das chuvas vamos reforçar a habitação de um dos nossos doentes, já velhote, que vive sozinho numa “espécie de alpendre”, isto é, quatro troncos com um pouco de colmo em cima; lateralmente não existe nada e a chuva entra por todo o lado.

Enfim, procuramos chegar a várias “frentes”, porque uma doença não se cura tão só com medicamentos. Penso que estamos a desenvolver um bom trabalho. A APARF tem-me dado o melhor e máximo apoio e porque tanto me orgulho desta Associação peço aos leitores que colaborem o mais possível. Podem crer que estão a contribuir para o bem-estar e felicidade de pessoas que muito sofrem. No que me diz respeito eu estou muito feliz porque vejo claramente que os nossos doentes estão felizes com o nosso trabalho.

Gostei de partilhar Mepapa convosco.


Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

sábado, 25 de novembro de 2017

Outras necessidades…

(...) Bom, mas além do tratamento afectivo também procuramos providenciar outros cuidados, nomeadamente aos mais necessitados. Por exemplo: veneno mata-ratos (estes malvados roem os pés dos nossos doentes), roupas, alguns mantimentos-base (sal, sabão, feijão, farinha) e agora descobri que o sabonete (um luxo!) “resulta” para os mais renitentes aos cuidados de higiene – gostam tanto do cheirinho que se lavam regularmente e quando chego junto deles estão todos perfumadinhos.(...)

Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A linguagem do Amor

Tão importante como o tratamento físico é o tratamento humano, e também aí tudo corre bem. Circulo pela aldeia de casa em casa e… sinto-me “em casa”. Recebem-me sempre com muita alegria, e alguns já respondem em português (“Bom dia, como está?”) à minha saudação em macua. Expansiva como sou, logo que me afeiçoo às pessoas manifesto o meu carinho através de beijinhos, abraços e carícias. Aqui as gentes não são nada dadas a esse tipo de manifestações – a linguagem corporal das emoções é expressa no canto e na dança. Então é “lindo” ver as tentativas para aprenderem a dar beijinhos. Juntam os lábios em forma de bico que abrem e fecham sem som, como as aves pequeninas… Agarram-me as mãos, encostam-se a mim e ficam muito quietinhos enquanto os acarinho – lembram os gatinhos pequenos na hora do mimo… Em muitos momentos de grande ternura digo-lhes tudo o que de mais bonito me ocorre em português – eles não entendem, mas a linguagem do amor não precisa de tradução, não é mesmo? (...)


Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Mepapa

Não sei muito bem como vos contar tudo o que está a decorrer em Mepapa. É difícil distanciar-me e fazer-vos uma descrição formal da nossa actividade. Digo nossa porque é graças a todos vós que contribuem para esta causa nobre e é graças à APARF que posso cuidar dos leprosos de Mepapa. Vão-me desculpar se vos falo em nome pessoal, mas podem ter a certeza que não esqueço que este é um esforço conjunto. Nosso!

A actividade que vou desenvolvendo também ela é um conjunto de várias actividades. Como sabem, prioritário é o tratamento médico nas suas 4 vertentes: olhos (muitas conjuntivites e infecções graves!), fisioterapia, úlceras, hidratação da pele. As pessoas estão francamente contentes e manifestam-no: as que nem precisam de qualquer tratamento vêm agradecer o eu tratar tão bem dos “corpos” dos doentes; as que se alegram porque o sofrimento minorou e as úlceras começaram a sarar; as que se regozijam porque pela 1ª vez em muitos anos passaram a “estação seca” sem gretas que rapidamente se transformam em úlceras…

Cada vez vão aparecendo mais pessoas (algumas de outras aldeias) para serem tratadas e também aparece gente com toda a espécie de queixas: tosse, dores de cabeça, diarreias, constipações, crianças anémicas e subnutridas, problemas de ciática e, há dias, até uma cabeça partida se me apresentou…


A todos procuro atender quer através da nossa farmácia, quer procurando medicamentos nos postos de saúde. (…)

Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Por um Mundo Sem Lepra

MEPAPA

Em Mepapa esteve a Ana Maria a cuidar de dezenas de doentes leprosos. Partilhamos a sua cuidadosa descrição de cuidados:

"Pobres, imensamente pobres! Idades superiores a 40 anos, vários velhinhos e velhinhas. São pessoas doces com um ar resignado, riem com a facilidade e espontaneidade das crianças… sobretudo quando eu digo umas tímidas palavrinhas em Macua. Falam pouco, o que permite concentrar-me melhor no meu trabalho. Ajoelho-me numa esteira à frente deles que estão sentados em plano mais elevado. Basicamente trato dos pés, das mãos, dos olhos, das úlceras, faço-lhes diversos exercícios de fisioterapia. O que eu sinto que eles mais gostam é a parte das massagens com óleo (pés e mãos): fecho os olhos, visualizo os músculos e os nervos e, com toda a minha concentração, enquanto vou massajando “passo-lhes” calor, cor, energia… Sou capaz de sentir o bem-estar que os invade. À minha volta um bando de crianças assiste num silêncio quase religioso: o único som que nos envolve é o vento que vai afagando as árvores…

Chego, a esteira é estendida no chão e aí me ajoelho. Faço as saudações. Riem abertamente!

Então, encho o alguidar com água, um pouco de desinfectante e começo o tratamento dos pés: a pele está tão grossa como a cortiça e é preciso esfregar vigorosamente. Só o tempo e um tratamento contínuo irá amaciar esta pele e eventualmente restituir-lhe alguma elasticidade – enquanto esta “casca” se mantiver as gretas continuarão a acontecer e através delas as úlceras, as infecções, algumas das quais até ao osso… Com muito cuidado, vou movendo e esticando os dedos dos pés que ainda existem de forma a activar as articulações e também a articulação dos tornozelos é exercitada. De seguida, começo a untar os pés com óleo, sempre tendo o cuidado de o fazer com a pele molhada, para que a hidratação seja o mais contínua (duradoura) possível. É também o momento de fazer uma boa massagem: planta dos pés e tornozelos.

À minha volta encontra-se habitualmente um “ramalhete” de crianças que me seguem de cubata em cubata e que observam o meu trabalho com a maior atenção. O silêncio é toral., ouve-se apenas o vento que afaga as árvores e eu procuro que através das minhas mãos seja transmitida uma sensação de bem-estar.

O passo seguinte é tratar das úlceras (a maior é parte nas pernas): limpá-las muito bem, aplicar-lhes pomada e depois enrolá-las em gaze para as proteger do pó e das moscas.

Enquanto as mãos estão “de molho” é a vez de tratar dos olhos – lavar com água fervida (os que estão infectados) pôr gotas e/ou pomada e passar à fase dos exercícios.

É muito frequente o leproso não pestanejar, o que significa que a vista não é lubrificada e portanto rapidamente se irrita e se inflama com qualquer grão de poeira.

O nosso automático “abrir e fechar de cortinas” protege também os olhos dos excessos da luminosidade e do vento. Como este automatismo não acontece com o leproso temos que o pôr a pestanejar o mais frequentemente possível – esse é um dos exercícios que faz parte dos meus cuidados. E um dos objectivos  a atingir será pôr os nossos doentes a pestanejar com regularidade criando através da força de vontade mecanismos como por exemplo: pestanejar de cada vez que vê uma árvore ou que mete comida na boca.

Finalmente passo às mãos que entretanto já estão um “pouco” macias (nunca estão tão “cortiça” como os pés). O procedimento é idêntico: passar óleo, massajar, exercitar, dobrar os dedos que não estão paralisados, estica-los devagar um a um, mover as articulações.

Enfim, esta é de uma forma geral a rotina de cada tratamento. Gostaria de vos transmitir todos os sentimentos que acontecem e ficam a “pairar no ar” enquanto decorre todo este ritual. São pessoas muito sós, muito abandonadas, cheias de resignação, um ar triste, mas tão doce…

São imensamente pobres, vivem da caridade dos familiares ou dos vizinhos que são quase tão pobres, com a única diferença de que têm mãos para pegar numa enxada…

Mas agora, graças à Associação têm alguém que se preocupa e que procura cuidar deles. Pelo menos estes 130 doentes de Mepapa estão mais felizes.
Ana Maria Albuquerque"

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Começando pelo princípio...

Estávamos no ano de 1999 quando se deu a partida da Ana Maria para terras de África. Foi a primeira voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos.


Ana Maria, de partida no aeroporto de Lisboa. Com as bagagens levava também muita coragem e amor para os doentes do Niassa.