quarta-feira, 29 de novembro de 2017

“DEI ALTA A 11”

Alegra-me comunicar-vos que “dei alta” a 11 (onze) dos nossos doentes. O número é pequenino, mas podem crer que tem muito significado, porque é extremamente difícil curar/sarar as úlceras dos leprosos. O primeiro a quem consegui curar duas perfurantes plantares (úlceras na planta do pé, muito profundas) encheu-me de um grande orgulho, porque eu nunca acreditei que fosse possível… É certo que estes 11, de vez em quando têm uma mazela ou outra, que precisam de ser “vigiados” (especialmente os olhos precisam de manutenção regular). É certo também que a estação húmida favorece um pouco os doentes – no tempo seco, devido à falta de hidratação da pele, as gretas, as infecções e as úlceras são mais fáceis de acontecer. Mas, se fiquei mais “leve” de trabalho – embora continue com outros doentes difíceis e renitentes, por outro lado fiquei sobrecarregada de trabalho infantil. (…)

Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

A Ana Maria a cuidar dos doentes

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O tempo das chuvas – um tipo de exercício físico diferente!

(...) Está a chegar o tempo das chuvas – é fundamental arranjar a “picada” (estrada) de acesso à aldeia que normalmente neste tempo fica intransitável a viaturas, mesmo as 4x4 como a nossa. Esta picada tem buracos e valas com quase 1 metro de profundidade. Quando chove – e aqui chove “a sério”, torrencialmente – a estradinha transforma-se num mar de lama. Por essa razão, uma vez por semana junto-me a 7 voluntários e durante as primeiras 4 horas da manhã carregamos a pick-up com tijolos – paralelepípedos compactos e pesados que depois são descarregados nos buracos ou valas até ficarem cheios. Garanto-vos que é um belo exercício físico!

Também por causa das chuvas vamos reforçar a habitação de um dos nossos doentes, já velhote, que vive sozinho numa “espécie de alpendre”, isto é, quatro troncos com um pouco de colmo em cima; lateralmente não existe nada e a chuva entra por todo o lado.

Enfim, procuramos chegar a várias “frentes”, porque uma doença não se cura tão só com medicamentos. Penso que estamos a desenvolver um bom trabalho. A APARF tem-me dado o melhor e máximo apoio e porque tanto me orgulho desta Associação peço aos leitores que colaborem o mais possível. Podem crer que estão a contribuir para o bem-estar e felicidade de pessoas que muito sofrem. No que me diz respeito eu estou muito feliz porque vejo claramente que os nossos doentes estão felizes com o nosso trabalho.

Gostei de partilhar Mepapa convosco.


Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

sábado, 25 de novembro de 2017

Outras necessidades…

(...) Bom, mas além do tratamento afectivo também procuramos providenciar outros cuidados, nomeadamente aos mais necessitados. Por exemplo: veneno mata-ratos (estes malvados roem os pés dos nossos doentes), roupas, alguns mantimentos-base (sal, sabão, feijão, farinha) e agora descobri que o sabonete (um luxo!) “resulta” para os mais renitentes aos cuidados de higiene – gostam tanto do cheirinho que se lavam regularmente e quando chego junto deles estão todos perfumadinhos.(...)

Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A linguagem do Amor

Tão importante como o tratamento físico é o tratamento humano, e também aí tudo corre bem. Circulo pela aldeia de casa em casa e… sinto-me “em casa”. Recebem-me sempre com muita alegria, e alguns já respondem em português (“Bom dia, como está?”) à minha saudação em macua. Expansiva como sou, logo que me afeiçoo às pessoas manifesto o meu carinho através de beijinhos, abraços e carícias. Aqui as gentes não são nada dadas a esse tipo de manifestações – a linguagem corporal das emoções é expressa no canto e na dança. Então é “lindo” ver as tentativas para aprenderem a dar beijinhos. Juntam os lábios em forma de bico que abrem e fecham sem som, como as aves pequeninas… Agarram-me as mãos, encostam-se a mim e ficam muito quietinhos enquanto os acarinho – lembram os gatinhos pequenos na hora do mimo… Em muitos momentos de grande ternura digo-lhes tudo o que de mais bonito me ocorre em português – eles não entendem, mas a linguagem do amor não precisa de tradução, não é mesmo? (...)


Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Mepapa

Não sei muito bem como vos contar tudo o que está a decorrer em Mepapa. É difícil distanciar-me e fazer-vos uma descrição formal da nossa actividade. Digo nossa porque é graças a todos vós que contribuem para esta causa nobre e é graças à APARF que posso cuidar dos leprosos de Mepapa. Vão-me desculpar se vos falo em nome pessoal, mas podem ter a certeza que não esqueço que este é um esforço conjunto. Nosso!

A actividade que vou desenvolvendo também ela é um conjunto de várias actividades. Como sabem, prioritário é o tratamento médico nas suas 4 vertentes: olhos (muitas conjuntivites e infecções graves!), fisioterapia, úlceras, hidratação da pele. As pessoas estão francamente contentes e manifestam-no: as que nem precisam de qualquer tratamento vêm agradecer o eu tratar tão bem dos “corpos” dos doentes; as que se alegram porque o sofrimento minorou e as úlceras começaram a sarar; as que se regozijam porque pela 1ª vez em muitos anos passaram a “estação seca” sem gretas que rapidamente se transformam em úlceras…

Cada vez vão aparecendo mais pessoas (algumas de outras aldeias) para serem tratadas e também aparece gente com toda a espécie de queixas: tosse, dores de cabeça, diarreias, constipações, crianças anémicas e subnutridas, problemas de ciática e, há dias, até uma cabeça partida se me apresentou…


A todos procuro atender quer através da nossa farmácia, quer procurando medicamentos nos postos de saúde. (…)

Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Por um Mundo Sem Lepra

MEPAPA

Em Mepapa esteve a Ana Maria a cuidar de dezenas de doentes leprosos. Partilhamos a sua cuidadosa descrição de cuidados:

"Pobres, imensamente pobres! Idades superiores a 40 anos, vários velhinhos e velhinhas. São pessoas doces com um ar resignado, riem com a facilidade e espontaneidade das crianças… sobretudo quando eu digo umas tímidas palavrinhas em Macua. Falam pouco, o que permite concentrar-me melhor no meu trabalho. Ajoelho-me numa esteira à frente deles que estão sentados em plano mais elevado. Basicamente trato dos pés, das mãos, dos olhos, das úlceras, faço-lhes diversos exercícios de fisioterapia. O que eu sinto que eles mais gostam é a parte das massagens com óleo (pés e mãos): fecho os olhos, visualizo os músculos e os nervos e, com toda a minha concentração, enquanto vou massajando “passo-lhes” calor, cor, energia… Sou capaz de sentir o bem-estar que os invade. À minha volta um bando de crianças assiste num silêncio quase religioso: o único som que nos envolve é o vento que vai afagando as árvores…

Chego, a esteira é estendida no chão e aí me ajoelho. Faço as saudações. Riem abertamente!

Então, encho o alguidar com água, um pouco de desinfectante e começo o tratamento dos pés: a pele está tão grossa como a cortiça e é preciso esfregar vigorosamente. Só o tempo e um tratamento contínuo irá amaciar esta pele e eventualmente restituir-lhe alguma elasticidade – enquanto esta “casca” se mantiver as gretas continuarão a acontecer e através delas as úlceras, as infecções, algumas das quais até ao osso… Com muito cuidado, vou movendo e esticando os dedos dos pés que ainda existem de forma a activar as articulações e também a articulação dos tornozelos é exercitada. De seguida, começo a untar os pés com óleo, sempre tendo o cuidado de o fazer com a pele molhada, para que a hidratação seja o mais contínua (duradoura) possível. É também o momento de fazer uma boa massagem: planta dos pés e tornozelos.

À minha volta encontra-se habitualmente um “ramalhete” de crianças que me seguem de cubata em cubata e que observam o meu trabalho com a maior atenção. O silêncio é toral., ouve-se apenas o vento que afaga as árvores e eu procuro que através das minhas mãos seja transmitida uma sensação de bem-estar.

O passo seguinte é tratar das úlceras (a maior é parte nas pernas): limpá-las muito bem, aplicar-lhes pomada e depois enrolá-las em gaze para as proteger do pó e das moscas.

Enquanto as mãos estão “de molho” é a vez de tratar dos olhos – lavar com água fervida (os que estão infectados) pôr gotas e/ou pomada e passar à fase dos exercícios.

É muito frequente o leproso não pestanejar, o que significa que a vista não é lubrificada e portanto rapidamente se irrita e se inflama com qualquer grão de poeira.

O nosso automático “abrir e fechar de cortinas” protege também os olhos dos excessos da luminosidade e do vento. Como este automatismo não acontece com o leproso temos que o pôr a pestanejar o mais frequentemente possível – esse é um dos exercícios que faz parte dos meus cuidados. E um dos objectivos  a atingir será pôr os nossos doentes a pestanejar com regularidade criando através da força de vontade mecanismos como por exemplo: pestanejar de cada vez que vê uma árvore ou que mete comida na boca.

Finalmente passo às mãos que entretanto já estão um “pouco” macias (nunca estão tão “cortiça” como os pés). O procedimento é idêntico: passar óleo, massajar, exercitar, dobrar os dedos que não estão paralisados, estica-los devagar um a um, mover as articulações.

Enfim, esta é de uma forma geral a rotina de cada tratamento. Gostaria de vos transmitir todos os sentimentos que acontecem e ficam a “pairar no ar” enquanto decorre todo este ritual. São pessoas muito sós, muito abandonadas, cheias de resignação, um ar triste, mas tão doce…

São imensamente pobres, vivem da caridade dos familiares ou dos vizinhos que são quase tão pobres, com a única diferença de que têm mãos para pegar numa enxada…

Mas agora, graças à Associação têm alguém que se preocupa e que procura cuidar deles. Pelo menos estes 130 doentes de Mepapa estão mais felizes.
Ana Maria Albuquerque"

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Começando pelo princípio...

Estávamos no ano de 1999 quando se deu a partida da Ana Maria para terras de África. Foi a primeira voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos.


Ana Maria, de partida no aeroporto de Lisboa. Com as bagagens levava também muita coragem e amor para os doentes do Niassa.