quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Testemunha de um doente

Eu comecei com o tratamento de lepra. Esta doença, no início, não me preocupou, eu pensava que não era nada. Mas as pessoas disseram que eu tinha lepra, que estas manchas eram próprias da lepra. Eu não conhecia nada isso, só ouvi falar de lepra mas nunca me interessei. Aqui na minha aldeia várias pessoas têm esta doença por isso cada mês vem o enfermeiro explica sempre que logo que começamos a tomar os medicamentos a doença pára, não vai continuando no nosso corpo. Os medicamentos que recebemos não se pagam, isso nos ajuda muito porque não podemos pagar. Também conforme me disse o enfermeiro, lá em casa, sempre controlamos as nossas crianças para ver se têm manchas. Ainda não sei onde apanhei esta doença, pois sou a única da minha família, mas agora as manchas já estão a desaparecer.

Doente de Lepra

Concentração de doentes de lepra que esperam consulta

domingo, 28 de janeiro de 2018

Dia Mundial dos Leprosos

"No Dia Mundial dos Leprosos houve dupla festa em Mepapa – por um lado, passagem da Maratona 2000, que como é óbvio, escolheu Mepapa para esse dia; por outro lado a Direcção Distrital de Saúde (de Lichinga) também escolheu Mepapa nesse dia. Claro que eu estive presente e participei dos 2 lados, aliás dos 3 lados – Maratona + D.D.S. e do lado dos nossos doentes, sentada no chão ao lado deles (e no meio deles), incitando-os a participar quanto a sua condição física lhes permita."

Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

sábado, 27 de janeiro de 2018

Missão de Ocua - Mahipa

Caros amigos da APARF

Depois de várias horas de avião até Moçambique, cá me encontro por terras de Ocua, mais precisamente na Missão de Ocua – Mahipa. Já cá estou faz um mês e desde então o meu trabalho, junto com a irmã Palmira, das Missionárias da Boa Nova, tem consistido na visita às aldeias desta comunidade para diagnosticar, tratar e curar os leprosos desta área.

Iniciámos o trabalho dia 13 de Novembro com o levantamento do número de doentes. Até ao momento temos um número aproximado de 165 leprosos, entre homens, mulheres e até crianças. Um número que tende a aumentar, pois ainda não visitámos todas as aldeias. Temos encontrado casos realmente dramático num estado já bastante avançado da doença com falta de membros e feridas abertas. Dói ver esta gente chegar a este ponto sabendo todos nós que é uma doença que tem cura e que com um pouco de força de vontade é possível vencê-la. Mas no meio onde esta gente vive, sem quaisquer condições de higiene, muitas vezes sem água e onde o porco e a galinha partilham a mesma casa do dono, é muito difícil controlar a doença. E depois há toda uma componente cultural muito difícil de ultrapassar.


A Sandra com doentes de lepra a quem dá assistência


Mas não estou aqui para mudar ou impor nada, apenas tentar ajudar, dentro do possível, a superar esta doença que os vai consumindo pouco a pouco, tanto no corpo como na alma, pois muitos deles desistem de lutar e perdem a esperança de uma vida um pouco melhor.

Quero por isso pedir a vossa ajuda para que possamos todos juntos dar um pouco mais de esperança e alento a estes doentes.

Sandra Figueiredo
(Voluntária da APARF)


Doentes de lepra mutilados, porque não tiveram assistência da fase inicial da doença

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Manhãs do Chibuto (continuação...)

As mães sorriem, riem abertamente, tocam-me, algumas estendem-me as crianças. Vinte minutos em que procuro dar bom dia individualmente a cada criança, avaliar o seu aspecto, saber do seu estado. Vinte minutos intervalados com umas corridas à cozinha para mexer as papas. Estão prontas. Servir cada criança, registar na folha de presenças, e depois verificar como comem. Os sabores vão variando: baunilha, caramelo, raspa de laranja, canela… mas nem sempre esta alternância de paladares vai ajudando. Nos casos mais difíceis sou eu que dou as papas, ou então faço dupla com a mãe: uma tapa o nariz da criança, a outra enfia a colher na boca que se abre para respirar!

Depois de alimentadas vem a fase dos tratamentos: pomada nas feridas, nas conjuntivites, antidiarreicos se necessário, vitaminas para os mais carentes, etc (De tarde será tempo de conversa e conselhos, mimos e brincadeiras).

As crianças tratadas, de barriguinha cheia e medicadas e é tempo de seguir para o mercado, abastecer-me para a próxima refeição: frutas, abóbora e batata doce será a papa que se seguirá à dos cereais matinais.

Esta é a rotina das manhãs do Chibuto, rotina permeada de histórias tristes e/ou alegres (que partilharei convosco), sempre na melhor companhia: as crinaças. E sempre com o melhor apoio: a APARF e todos os que contribuem para este projecto.

Bem hajam.


Ana Maria Oliveira
(Voluntária APARF) 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Manhãs do Chibuto

7,30h: a caminho do Hospital vou sendo saudada pelas crianças que me honram com o apelido de Amiga. Não sei quem são, não sei os nomes delas. Mas somos amigas.

- Ámiga! Bom dia.
- Lichile, Amiga!

Sorrisos lindos, gestos envergonhados quando as afago… são tão bonitas!

Chego ao hospital feliz pela caminhada cheia de infantis (e não só) bons dias.

Entro no alpendre e à minha direita, na direcção oposta para onde me dirijo já está o grupo de mamãs e das crianças. Imediatamente várias mãos se erguem a fazer adeus, vários sorrisos de contentamento se desenham nestes rostos amigos. Eu retribuo e resisto à tentação de ir lá directa, mas na “cozinha” (isto é, quatro paredes negras albergando três grandes fogueiras) espera-me um panelão cheio de água quase a ferver onde irei fazer a multimistura para as crianças. E também para alguns tuberculosos e mães de prematuros, presença muito frequente no hospital.

Assim que a papinha começa a ferver, lá vou eu directa à enfermaria para o momento mais temido do dia: a consulta ao livro de óbitos. Bem! Nas últimas seis semanas só morreram três crianlas de mal-nutrição! Porque de malária, anemia grave, sida… morreram mais do dobro. Muito triste. De seguida, vou “passar revista às tropas”. Bom dia, Amiga das crianças! Bom dia mãe das crianças. Ou mais personalizado: Bom dia, amiga de Maria. E, por pura simpatia, “metem-se” comigo, imitando na perfeição o meu tom: “Prato e Xipune!” (xipune=colher, do inglês spoon). Esse será o sinal de que as papas estão prontas.
(Continua...)

Ana Maria Oliveira
(Voluntária APARF) 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Crianças "ratinhos"

São autênticos “ratinhos” algumas crianças aqui, com braços e pernas da grossura de um dedo, com tamanho de metade da sua idade. São assim os desnutridos que pedem ajuda às Irmãs.

Os dois gémeos da fotografia, não parece mas têm 5 meses, e o seu peso é o mesmo que eu e a minha irmã gémea tínhamos quando nascemos (2,6 kg e 2,4 kg).

Na Europa parece que gémeos é uma coisa rara, mas aqui parece que tudo nasce aos pares, há muitos gémeos e muitas mamãs sem leite ou com o peito encaroçado. E tudo recorre às Irmãs.

É graças a Deus e à ajuda da APARF que as Irmãs vão conseguindo dar resposta às necessidades das crianças desnutridas, dando-lhes leite em pó – próprio para a sua idade, ensinando a fazer papinhas de multimistura, dando roupinha ou atendendo a qualquer necessidade que tenham.

Os papás e mamãs agradecem muito e as crianças manifestam o seu sorriso lindo.

“Quando a criança sorri, é Deus que canta” Raoul Follereau.

Noxukuro Vanthene (Agradecemos Muito)


Comunidade das Servas de Nossa Senhora de Fátima de Mecubúri
 e Ana Margarida (Voluntária da APARF)


A Ana Margarida recupera para a vida crianças desnutridas

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Missão de Murrupula

Caros e bons amigos dos leprosos, em particular à APARF um abraço do tamanho do mundo para todos vós. Vós APARF e todos os que tornam possível a sua existência, em meu nome e de todos quantos beneficiam de qualquer modo do apoio prestado pela APARF o nosso MUITO OBRIGADO – BEM HAJAM.

E porque quem recebe agradece, quem dá, quem oferece é lógico que também partilhe esse seu gesto sabendo que nem tudo cai em saco roto; assim, vou procurar, embora um pouco sintetizado o que se tem feito neste espaço de tempo 1 ano, mas que efectivamente apenas 6 meses foi possível arrancar por exigências e dificuldades dos serviços de saúde.

Antes de passar à narração dos factos, quero agradecer à APARF esta oportunidade de estar próximo e poder fazer algo pelos mais pobres, a todos vós que tornais possível a continuidade da APARF, amigos e benfeitores. BEM HAJAM, pois as lepras são várias: lepra, propriamente dita, fome, doenças variadas, crianças carentes de tudo, etc, etc, etc.

Começo pelo transporte, há uma moto adquirida pela APARF para as deslocações que doutra maneira não era possível visto que a maioria dos caminhos são apenas caminhos de pé pelo interior da mata em distâncias desde os 30, 50 e 90 quilómetros.

O distrito de Murrupula – Província de Nampula – com uma área de 3.000 quilómetros quadrados tem 4 Centros de Saúde e 40 postos de concentração para atendimento e diagnóstico de novos casos de lepra, e distribuição de medicamentos respectivos. Cada um destes 40 postos têm 2 e 3 activistas voluntários que proporcionam as concentrações dado que o povo não vive em grandes comunidades, é muito solitário, daí uma grande dificuldade em trabalhar.

Em cada concentração faz-se campanha de informação, sensibilização e mais difícil responsabilização.

Muitas destas saídas obrigam a não ter refeição nem horário de regresso, só o que não pode faltar na mochila é uma garrafa de água, e assim, de 2ª a 6ª feira cá se vão percorrendo estes caminhos (do Amor) levando e fazendo o melhor possível. De quando em vez temos que andar dois no “Jaguar” de duas rodas e descapotável o que também dificulta um pouco, mas tudo é possível.

Além de estar no Serviço da lepra ainda executo várias tarefas em ajuda na missão, o tempo é pouco e corre veloz.

Doentes, entre casos novos e em tratamento temos um número variável de 400-450.

Um caso grave que foi detectado, é um indivíduo, ainda jovem, começou a fazer o tratamento em 1998/99, prazo de tratamento 1 ano; desse ano levantou apenas 7 doses, depois de várias tentativas para o localizar e trazer a tratamento, foi trabalho duro. Está bastante afectado quer nos membros como na visão; assim, está sendo aplicado um tratamento especial reforçado com “Prednisolona” 6 meses – nome próprio é Prednipal embalagem de 6 cartões diferentes na cor, no conteúdo químico e na dosagem, ou seja: 1º - 40 mg (química base, em que cada carteira tem composição diferente); 2º - 30 mg, 3º - 20 mg, 4º - 15 mg, 5º - 10 mg e 6º - 5 mg.

Veremos com o tempo o resultado, pois à partida o seu estado é desencorajador e tecnicamente perdido.

As faltas ao tratamento é um dos grandes problemas, no entanto, os serviços de saúde estão providenciando com as autoridades locais/tradicionais uma maior sensibilização e responsabilidade por parte dos doentes.

A luta está lançada, tem pernas para andar, é necessário que todos colaborem para a erradicação.
Na tuberculose também o programa está lançado e a fecundar, como em tudo, neste país e neste povo, com dificuldades.

Ficarei por aqui, caros amigos, com a promessa de voltar a dar notícias.

Grande abraço para todos e que Deus nos abençoe a todos e cada um com o seu trabalho diferente, mas para um fim comum.

Bem hajam e um até breve.
V/Amigo

Ângelo Bouça
(Voluntário APARF)

O Sr. Ângelo percorre centenas de quilómetros no seu "Jaguar" para ajudar os mais necessitados

Eis a população que beneficia da ajuda do Voluntário da APARF

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Feliz Ano Novo!

Pela ocasião do dia 1 de Janeiro de 2018, Dia Mundial da Paz, transcrevemos as palavras de Raoul Follereau.