segunda-feira, 26 de março de 2018

Dois médicos, dois testemunhos

(http://voluntariadoaparf.blogspot.pt/2018/02/relatorio-de-actividades-do-projecto.html)
Continuação...

”Concedei-me, Senhor, serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir umas das outras”.

Descobri esta “oração de serenidade” nos livros dos A.A., enquanto preparava uma das sessões de grupo. Decido iniciar com ela o meu testemunho, porque parece fazer todo o sentido, neste momento em que procuro por entre o meu léxico verbal associações que me permitam exprimir e partilhar muito do que vou experimentando.

O Cubal é uma terra linda, muito verde, que me inspira sentimentos apaziguadores, bem como de assombro!...

A Missão Católica aparece, como por magia, revestida ao largo por vários montes, quando pelas 7 horas pedalo na minha bicicleta o caminho de terra batida que liga a cidade à missão. Falo em “magia”, porque é o que se sente quando progressivamente nos vamos apercebendo dos ritmos, cores, cheiros, disposições que a compõem… o hospital, onde se atendem diariamente centenas de doentes e com uma organização estrutural que não julguei encontrar no interior de Angola; os “complementos” do hospital, as cozinhas onde se prepara a alimentação dos doentes e acompanhantes, a carpintaria, a rouparia, a farmácia interna e externa, o armazém dos medicamentos, o laboratório, etc, etc; o bairro de São José construído tijolo a tijolo para acolher refugiados, idosos, crianças e cuja subsistência é auxiliada pelas Irmãs com incentivos continuados de aprendizagem da autossubsistência, autonomia e dignidade; a comunidade das Irmãs Teresianas… doçura, leveza, alegria… a fé a transbordar por todos os poros. A primeira imagem que tive foi a de uma comunidade de “formiguinhas trabalhadoras”, incansáveis, alegres, dia a dia unindo esforços, encontrando soluções, tornando possível o inimaginável; as crianças e jovens a caminho da escola, ou simplesmente a brincar à porta das casas, as mulheres cobertas de panos de todas as cores com as crianças às costas e os fardos à cabeça, num exercício de equilíbrio que desafia as leis da gravidade, os homens conduzindo triunfantemente as suas motos, outros de bicicleta, outros a pé, outros transportando doentes nos cangulus, os cães, as galinhas, os cabritos, as várias músicas de fundo, quizomba, baladas brasileiras e música comercial importada do ocidente… tudo isto me entra diariamente pelos olhos estimulando todos os meus sentidos, alojando-se progressivamente no meu coração.

É assim a missão de Cubal, o local onde há alguns meses atrás decidi juntamente com o Pedro “viver” o projecto “Que Paz?” Num momento em que o mundo vivia suspenso na questão do ataque ao Iraque pelos E.U.A. (que acabou por acontecer com os resultados que sabemos) partíamos com vontade de experimentar outras vias, outros caminhos para a paz, de explorar outras formas de comunicação ente os povos que não a opressão bélica, a imposição cultural, politica e económica. Partíamos à procura de um sentido mais profundo e comprometedor para a nossa vida de Homens e também de Cristãos. Partíamos movidos pelo “amor” que continuamente nos desinstala do “bem-estar” das nossas comodidades, nos provoca e um dia nos fez sonhar… como dizia o poeta “pelo sonho é que vamos…” E fomos.

Hoje escrevo estas palavras sem censuras, espontaneamente, com toda a verdade que sei, porque é assim que a vida deve ser… um acto de amor espontâneo!

Trabalho no hospital da missão, essencialmente no serviço de pediatria e centro de nutrição infantil. Diariamente observo e trato cerca de 30 crianças. E tudo poderia ser simples terminando aqui o meu testemunho, se não estivesse no interior de Angola, onde a realidade reveste nuances até então minhas desconhecidas. De manhã, quando saio de casa, não sei se vai ser uma manhã “normal” com situações graves mas controláveis, ou se uma das duas crianças já faleceram durante a noite, ou se outras irão morrer-me nos braços, ou se os pais de uma outra com diarreia constantes decidiram fugir com a criança porque já estavam “cansados” de estar no internamento, ou ainda se outros deram tratamento tradicional às escondidas no internamento e a criança agravou o seu estado, ou se não contaram se teve duas ou vinte dejecções e não deram soro durante toda a noite, ou arrancaram a sonda para a alimentação porque acham que faz mal, ou se duas crianças com anemia grave e não tendo doadores, os próprios pais recusaram a doação por motivos absurdos, ou se vai chegar ao banco de urgência uma criança doente há mais de dois meses, que já fez tratamento umbundo e está num estado lastimável de desnutrição, desidratação, infecção da pele, dos pulmões, insuficiência hepática, renal, etc, etc, etc, Pela manhã enquanto pedalo até à missão, não sei se vou rir, se vou chorar, se vou sentir revolta, impotência, frustração, angústia, pena, ternura, alegria… não sei se vou desejar ficar para sempre, ou ter vontade de fugir pela porta fora a meio da manhã. Pela manhã, pela tarde, pela noite… tudo é tão intenso!... O coração que se aperta em sintonia com uma mãe que acaba de perder o seu filho, a alegria tremenda por uma criança que acabou de sair de como e nos sorri pela primeira vez, a revolta perante um povo que foi privado de tudo o que é básico e essencial e continua actualmente a ser explorado, vendido, muitas vezes não tendo essa consciência de que tem direito à saúde, à educação, a uma vida com dignidade, a impotência perante a falta de “tudo” e a angústia de trabalhar com meios tão precários que me limitam a avaliação diagnóstica bem como as possibilidades de tratamento.

Os primeiros meses foram dominados por esta mistura avassaladora de emoções intensas e confusas. Foram também tempo de adaptação ao clima, à ausência de água corrente e potável e ao ritual dos baldes, panelas e filtro, à falta de luz diária, ao ritmo de vida casa-trabalho, trabalho-casa, à ausência de tudo o que é “distracção”, informação, comunicação, às saudades da família e amigos.

O projecto está a ser uma experiência (atrevo-me a um neologismo, bem ao jeito do Mia Couto) “surpreendapaixonástica” a todos os níveis. De tempos a tempos vou revendo as minhas vivências e pareço destrinçar melhor o essencial do dispensável, perceber melhor o que me faz feliz, no fundo o que sou e do que realmente preciso para viver.

Neste momento o tempo e o vivenciar repetido das situações, os laços que vou estabelecendo com a terra, a cultura e as pessoas vão permitindo a integração da tempestade de afectos e redefinindo estares e atitudes mais adaptadas e estruturadas.

Desta forma vou continuando nesta “luta” diária pela vida. Lado a lado com as gentes desta terra vou dando passos, pequenos passos que procuram sentidos, caminhos outros para a Paz.


Cubal – Ana Marques


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