terça-feira, 24 de abril de 2018

O Menino dos olhos tristes

Lá estão as crianças todas repetindo em coro palavras e frases da professora Teresinha: Livro, Lápis, Bom Dia, Como Está?, Eu Amo O Meu Pai, Eu Amo A Minha Mãe. O que sentirão aqueles 68 órfãos ali presentes que já não têm pai nem mãe? Mas todos participam e aprendem o português. Todos, menos um: lááá no extremo oposto do terreno está um pequenino sentado próximo da fogueira que aguarda o panelão da multimistura, ou como aqui dizem das papas enriquecidas. À primeira impressão, tem um ar apático como se fossem muitos os quilómetros que o afastassem daqueles 50 metros de distância das outras crianças.

“Aquela criança está doente”, dizia-me Alfredo um dos dois monitores (homens!) que gosta tanto das crianças quanto eu.

Mas não, eu já tinha examinado o menino dos pés à cabeça e só lhe encontrei a magreza e o respectivo imenso ventre a desparasitar, acompanhados de um olhar tão triste...

Na hora de comer, começamos a formar as filas das crianças; o menino assiste imperturbável à barafunda organizativa e eu não o incluo nas filas. Vou-lhe entregar um prato cheio de papas e fico a observá-lo pelo canto do olho: serenamente, colher a colher, come a dose toda. Alfredo e eu entreolhamo-nos. Volto a encher o prato e de novo come tudo no mesmo ritmo tranquilo. Um de nós comenta: “Já sabemos qual é a doença dele...” Mais tarde, uma irmã do menino vem buscá-lo e as nossas perguntas sucedem-se quase com sofreguidão: Quem é? Que idade tem? Como se chama? Onde Vive? Então ela conta que são só estes 2 irmãos, ela com 10 e ele com 2 anos, vivem com uma avó e um tio. Não têm pai nem mãe, recentemente falecidos (sida). Alfredo promete-me ir visitar a família e averiguar os factos. Há-de ir e confirmar tudo isto. Eu fico cheia daqueles olhos tristes que me hão-de acompanhar muitas horas. Nas vezes seguintes, não resisto a pegar-lhe ao colo e a acarinhá-lo mais do que aos outros. (aqueles olhos tristes...). Até que um dia chamo o tio e a avó e peço para partilhar o seguinte: 1 semana comigo, 2 com a família. Concordam. Nasce assim (mais) uma experiência maravilhosa! Livro algum conseguiria “contar” como uma criança triste se transforma numa criança feliz, como uma criança engorda 1,200 Kg numa semana, e não mais é aquele menino cheio de silêncio e apatia, e canta e tagarela (dialecto) e desafia-me com grandes risadas... não há descrição possível!

Ao cair da noite, é a hora do mimo: fica triste, não quer brincar, ameaça choramingar, pede colo. Largo tudo o que estou a fazer, instalamo-nos os 2 num sofá, ponho música e ele ali fica no colo, às vezes absorto, outras a brincar com as mãozitas (ou um dos sapatos), nitidamente disfrutando a proximidade física e os mimos que lhe vou dando.

Meia hora depois, sou eu que ponho termo ao encantamento: “Vamos! Já chega de mimo!” Começo a fazer-lhe cócegas e só paro quando o ouço a rir à gargalhada.

De noite, posso percorrer a cama de lés-a-lés que ele me acompanha – “tem que” dormir encostado a mim.

É seropositivo? Não sei. E acho que não quero saber. Por aqui não há retrovirais, o meu carinho é igual, não posso dar mais, nem fazer melhor. Mas o imenso apetite dele enche-me de esperança... um apetite tão inesgotável que eu costumo “reclamar”: pequenino! Tu és a ruína da minha despensa!!!

Ana Maria Oliveira



Sem comentários:

Enviar um comentário