quarta-feira, 9 de maio de 2018

Caminhos de Amor

MISSÃO DE MURRUPULA - MOÇAMBIQUE
Amigos e APARF

Um grande abraço do tamanho do mundo para todos vós.

Depois de 19 meses de estadia em Moçambique, na província de Nampula a oitenta quilómetros mais para o interior, ou seja, no distrito de Murrupula, como voluntário da APARF, estou de volta, com o coração cheio e um grande desejo de voltar.

Estou de regresso, mas triste porque fiquei preso aquelas gentes que foram o motivo e a causa pela qual eu fui; tristeza por trazer no coração todas as necessidades e sofrimentos daquelas gentes; simultaneamente, sinto uma enorme alegria e satisfação por saber e ver que mesmo o pouco que se possa fazer, representa muito, para quem de tudo necessita; assim, meu e deles, o nosso BEM HAJAM.

Dou graças a Deus por me ter proporcionado esta bela experiência, esta maravilhosa vivência da qual resulta um enorme crescimento espiritual; como nos dizem os evangelhos, “Deus paga sempre cem por um, mil por um...”

Quero agradecer também a todo o corpo dos Missionários de São João Baptista, pelo apoio logístico, especialmente, em Lisboa, o Sr. Padre Cristino, e em Moçambique, nas pessoas dos Srs. Padres Jacob e Luís, que ajudaram especialmente na obtenção de toda a documentação e apoio junto da Arquidiocese de Nampula das autoridades sanitárias e governamentais; também todo o carinho e apoio das comunidades de Irmãs do mesmo corpo Missionário por onde passei: afinal estamos todos no mesmo barco (irmanados pelo mesmo Espírito), cada qual com o seu remo, seguindo as indicações do Mestre, que é Jesus Cristo nosso Senhor! Graças a Deus!

Agradeço a todos vós amigos, colaboradores, benfeitores e funcionários, que sois o suporte deste grande património legado por Raoul Follereau, à APARF, o meu muito obrigado por ter confiado e apoiado a minha fraca e frágil inter-ajuda, proporcionando-me esta enorme riqueza.

Descrevendo um pouco os trabalhos realizados: no campo, foram percorridos cerca de treze mil quilómetros por caminhos e veredas que só um Jaguar de duas rodas é possível andar por aqueles caminhos que eu lhe chamei e com convicção digo caminhos de amor; foram vistos, isto é, consultados vários milhares de pessoas, adultos e jovens; entre tratados, em tratamento e/ou com alta a cifra situa-se no número de 450 a 500 pacientes.

No terreno deixámos também 12 (doze) bicicletas aos activistas (voluntários nativos que nos ajudam na pesquisa e sensibilização das populações) para que depois de acordo com um calendário pré-estabelecido, nos facilita o trabalho de concentração em determinado local; estas bicicletas foram gentilmente cedidas, oferecidas, pela Fundação Teresa Regojo na pessoa do seu representante Sr. Carreira (quando da sua passagem/visita de trabalho, pela Missão de Murrupula) para quem vão os meus sinceros e sentidos agradecimentos, bem hajam; distribuímos também, na medida do possível e disponibilidades, sal, sabão e outros medicamentos; na Missão, são atendidos idosos, jovens, crianças em primeiros socorros e outras necessidades sanitárias primárias, em número variável de 10 a 30.

Que Deus nos abençoe a todos, nos dê a Sua fortaleza para sabermos estar disponíveis por esta e outras causas que afinal são a razão do nosso existir e de estar neste mundo tão conturbado.

Grande abraço, com um até breve.

Ângelo Bouça 
Voluntário da APARF






sexta-feira, 4 de maio de 2018

O embondeiro

Caros Amigos não posso deixar de apreciar também a beleza que este País nos oferece.

 Por todo o Moçambique existe uma árvore grandiosa chamada embondeiro e claro, aqui em Ocua não é excepção. O embondeiro para quem não o conhece é uma árvore de grande estatura, a maior parte do tempo despida, sem folhas, o seu tronco de cor cinzenta é algo de extraordinário chegando a medir entre 10 a 15 metros de altura, pode chegar aos 8 metros de diâmetro e atingir 3.000 anos de vida. É realmente uma árvore majestosa e imponente.


Durante as visitas pelas comunidades deparámos com um embondeiro um pouco diferente. Mas o que tinha de tão especial este embondeiro? Nada mais nada menos do que uma grande abertura no meio - curioso! - Comentei. Foi então que me contaram a história daquele embondeiro e o que eu não sabia é que aquele embondeiro trazia com ele uma história de sofrimento que durante tantos anos assolou este povo.

Há muitos anos atrás, antes mesmo do tempo colonial neste país a lepra já martirizava este povo e não havendo qualquer tipo de medicamento o seu modo de erradicar a doença era isolar essas pessoas para que a doença não se propagasse. Ao longo da história temo-nos apercebido que isso foi feito um pouco por todo o mundo. Aqui não foi excepção, também o fizeram, mas de uma forma um pouco diferente. Os doentes eram levados para fora das aldeias e eram colocados dentro dos troncos dos embondeiros. Abriam grandes buracos no meio do seu tronco para entrarem e ali ficavam, seria como que um esconderijo para que ali pudessem viver sem que o resto da família ou aldeia viesse a sofrer do mesmo mal. Mas, ali eram deixados com apenas um saco de farinha para se alimentarem. Os que para lá os levavam diziam que voltariam mais tarde para lhes trazer água e mais alimentos. Mas essa água e esses alimentos nunca chegavam... e essas pessoas acabavam por morrer de sede e fome.

Poderia pensar-se inicialmente num simples afastamento para não prejudicarem os outros, mas a ideia desde o início do seu isolamento era exactamente essa, de morrerem isolados para que não contaminassem o resto da aldeia com aquela “maldição”.

Felizmente isto já não acontece nos nossos dias, existe um medicamento eficaz para a cura desta doença, sabemos que a sua forma de contágio é mínima e os doentes podem fazer esse tratamento em casa, junto com a família.

E hoje em dia estes buracos nos troncos dos embondeiros servem apenas de vivendas, armazéns e refúgio para muitos animais selvagens.

Sandra Figueiredo

* “Salama” – cumprimento mais usual em macua.