sexta-feira, 30 de março de 2018

“… longe um arado prossegue no tumulto da incerteza…”

No dia em que pela primeira vez fiz o caminho de bicicleta de casa até à Missão pensei que aí estava simbolizado o desafio que sinto ser-me feito diariamente: queres chegar à Missão? Então percorre primeiro este caminho… E ao longo do percurso Ele vai-me presenteando com tudo o que preciso: o pão, o descanso, o amor, rostos e vidas concretas, “bom dia! Walale?”, o sol, a terra em todo o seu esplendor, a saúde, a Ana… e depois só me pede uma coisa: que ame! Ele que me ama infinitamente, pede-me que depois eu o faça tanto, ou tão bem, quanto me for possível em cada dia… tanto quanto maior for a minha capacidade de não aprisionar em mim todo o amor que me dá… E amanhã outra vez… E depois…

Não é fácil pôr por palavras tudo o que por aqui vou vivendo e experimentando. Sei que estou muito feliz por estar aqui e que hoje não queria estar em nenhum outro lado… Este povo irmão tão sofrido, a Comunidade das Irmãs tão provocadoramente “humana e divina”, a maravilha de poder partilhar esta experiência com a Ana, a ausência de tanta coisa conotada com o dito “mundo desenvolvido” e tantas outras pequenas grandes coisas são insistentemente uma feliz e diversa provocação…

Às vezes chego ao fim do dia muito cansado e a sentir que gostaria de ter um pouco mais de tempo livre para pensar/reflectir/integrar cada dia… mas sito também que no silêncio Ele me vai construindo. Obrigado, Ir. Júlia, por tudo quanto tem feito para que hoje pudéssemos estar aqui.

Muito unido,
Cubal, 
Pedro

segunda-feira, 26 de março de 2018

Dois médicos, dois testemunhos

(http://voluntariadoaparf.blogspot.pt/2018/02/relatorio-de-actividades-do-projecto.html)
Continuação...

”Concedei-me, Senhor, serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir umas das outras”.

Descobri esta “oração de serenidade” nos livros dos A.A., enquanto preparava uma das sessões de grupo. Decido iniciar com ela o meu testemunho, porque parece fazer todo o sentido, neste momento em que procuro por entre o meu léxico verbal associações que me permitam exprimir e partilhar muito do que vou experimentando.

O Cubal é uma terra linda, muito verde, que me inspira sentimentos apaziguadores, bem como de assombro!...

A Missão Católica aparece, como por magia, revestida ao largo por vários montes, quando pelas 7 horas pedalo na minha bicicleta o caminho de terra batida que liga a cidade à missão. Falo em “magia”, porque é o que se sente quando progressivamente nos vamos apercebendo dos ritmos, cores, cheiros, disposições que a compõem… o hospital, onde se atendem diariamente centenas de doentes e com uma organização estrutural que não julguei encontrar no interior de Angola; os “complementos” do hospital, as cozinhas onde se prepara a alimentação dos doentes e acompanhantes, a carpintaria, a rouparia, a farmácia interna e externa, o armazém dos medicamentos, o laboratório, etc, etc; o bairro de São José construído tijolo a tijolo para acolher refugiados, idosos, crianças e cuja subsistência é auxiliada pelas Irmãs com incentivos continuados de aprendizagem da autossubsistência, autonomia e dignidade; a comunidade das Irmãs Teresianas… doçura, leveza, alegria… a fé a transbordar por todos os poros. A primeira imagem que tive foi a de uma comunidade de “formiguinhas trabalhadoras”, incansáveis, alegres, dia a dia unindo esforços, encontrando soluções, tornando possível o inimaginável; as crianças e jovens a caminho da escola, ou simplesmente a brincar à porta das casas, as mulheres cobertas de panos de todas as cores com as crianças às costas e os fardos à cabeça, num exercício de equilíbrio que desafia as leis da gravidade, os homens conduzindo triunfantemente as suas motos, outros de bicicleta, outros a pé, outros transportando doentes nos cangulus, os cães, as galinhas, os cabritos, as várias músicas de fundo, quizomba, baladas brasileiras e música comercial importada do ocidente… tudo isto me entra diariamente pelos olhos estimulando todos os meus sentidos, alojando-se progressivamente no meu coração.

É assim a missão de Cubal, o local onde há alguns meses atrás decidi juntamente com o Pedro “viver” o projecto “Que Paz?” Num momento em que o mundo vivia suspenso na questão do ataque ao Iraque pelos E.U.A. (que acabou por acontecer com os resultados que sabemos) partíamos com vontade de experimentar outras vias, outros caminhos para a paz, de explorar outras formas de comunicação ente os povos que não a opressão bélica, a imposição cultural, politica e económica. Partíamos à procura de um sentido mais profundo e comprometedor para a nossa vida de Homens e também de Cristãos. Partíamos movidos pelo “amor” que continuamente nos desinstala do “bem-estar” das nossas comodidades, nos provoca e um dia nos fez sonhar… como dizia o poeta “pelo sonho é que vamos…” E fomos.

Hoje escrevo estas palavras sem censuras, espontaneamente, com toda a verdade que sei, porque é assim que a vida deve ser… um acto de amor espontâneo!

Trabalho no hospital da missão, essencialmente no serviço de pediatria e centro de nutrição infantil. Diariamente observo e trato cerca de 30 crianças. E tudo poderia ser simples terminando aqui o meu testemunho, se não estivesse no interior de Angola, onde a realidade reveste nuances até então minhas desconhecidas. De manhã, quando saio de casa, não sei se vai ser uma manhã “normal” com situações graves mas controláveis, ou se uma das duas crianças já faleceram durante a noite, ou se outras irão morrer-me nos braços, ou se os pais de uma outra com diarreia constantes decidiram fugir com a criança porque já estavam “cansados” de estar no internamento, ou ainda se outros deram tratamento tradicional às escondidas no internamento e a criança agravou o seu estado, ou se não contaram se teve duas ou vinte dejecções e não deram soro durante toda a noite, ou arrancaram a sonda para a alimentação porque acham que faz mal, ou se duas crianças com anemia grave e não tendo doadores, os próprios pais recusaram a doação por motivos absurdos, ou se vai chegar ao banco de urgência uma criança doente há mais de dois meses, que já fez tratamento umbundo e está num estado lastimável de desnutrição, desidratação, infecção da pele, dos pulmões, insuficiência hepática, renal, etc, etc, etc, Pela manhã enquanto pedalo até à missão, não sei se vou rir, se vou chorar, se vou sentir revolta, impotência, frustração, angústia, pena, ternura, alegria… não sei se vou desejar ficar para sempre, ou ter vontade de fugir pela porta fora a meio da manhã. Pela manhã, pela tarde, pela noite… tudo é tão intenso!... O coração que se aperta em sintonia com uma mãe que acaba de perder o seu filho, a alegria tremenda por uma criança que acabou de sair de como e nos sorri pela primeira vez, a revolta perante um povo que foi privado de tudo o que é básico e essencial e continua actualmente a ser explorado, vendido, muitas vezes não tendo essa consciência de que tem direito à saúde, à educação, a uma vida com dignidade, a impotência perante a falta de “tudo” e a angústia de trabalhar com meios tão precários que me limitam a avaliação diagnóstica bem como as possibilidades de tratamento.

Os primeiros meses foram dominados por esta mistura avassaladora de emoções intensas e confusas. Foram também tempo de adaptação ao clima, à ausência de água corrente e potável e ao ritual dos baldes, panelas e filtro, à falta de luz diária, ao ritmo de vida casa-trabalho, trabalho-casa, à ausência de tudo o que é “distracção”, informação, comunicação, às saudades da família e amigos.

O projecto está a ser uma experiência (atrevo-me a um neologismo, bem ao jeito do Mia Couto) “surpreendapaixonástica” a todos os níveis. De tempos a tempos vou revendo as minhas vivências e pareço destrinçar melhor o essencial do dispensável, perceber melhor o que me faz feliz, no fundo o que sou e do que realmente preciso para viver.

Neste momento o tempo e o vivenciar repetido das situações, os laços que vou estabelecendo com a terra, a cultura e as pessoas vão permitindo a integração da tempestade de afectos e redefinindo estares e atitudes mais adaptadas e estruturadas.

Desta forma vou continuando nesta “luta” diária pela vida. Lado a lado com as gentes desta terra vou dando passos, pequenos passos que procuram sentidos, caminhos outros para a Paz.


Cubal – Ana Marques


quinta-feira, 22 de março de 2018

Desnutrição

Reparem bem na expressão desta criança. Não, não é fome: é o terrível cortejo que a acompanha e que origina a disfunção de muitos órgãos – coração, pâncreas, fígado – a disfunção de sistemas como o cardiovascular, urinário, gastrointestinal, endócrino, imunitário, circulatório, glandular… “Trocado por alguns miúdos”, a circulação sanguínea está reduzida, o coração funciona mal (muitas crianças morrem de ataque cardíaco), os rins são ineficientes – daí as infecções urinárias, também os intestinos cujas mucosas estão atrofiadas, são facilmente nas suas funções; os músculos respiratórios são facilmente fatigados, falta energia à criança; as glândulas sudoríparas, lacrimais e salivares estão atrofiadas, o fígado não tem capacidade para metabolizar, eliminar toxinas… Isto até parece um artigo de medicina!!!

Só queria que entendessem que atrás destes “palavrões” vem o tal cortejo. Diarreia, anemia, desidratação, baixa temperatura corporal, edemas, otites (muito frequentes), úlceras/chagas na pele, desenvolvimento mental e comportamental retardado, etc, etc, etc…!

Olho para as crianças como esta e fico sem palavras. Sei que ali já não habita fome, senhoria de inquilinos como o frio, a confusão e a dor, tanta…!

Olhem de novo para esta criança: que outra expressão poderia ter este ar assustado? Como se ela nos perguntasse: Porquê?

As respostas estão nas reflexões de cada um. E também na nossa consciência. 

Do Chibuto com amizade para todos os Aparfianos. Estamos juntos!

Ana Maria



sábado, 17 de março de 2018

O meu querido José!

A fome, uma grande endemia! Vai de Outubro a Março, altura em se começam a fazer as primeiras colheitas de maçarocas de milho. Quando há grandes secas, muita gente não resiste.

Em Netepo construí um poço que abastece de água a população. A utilização de águas dos charcos para lavar, beber, etc, é a causa de muitas doenças.


Mas cuido também de crianças desnutridas, procurando fornecer-lhes algumas refeições e vitaminas. Tive a meu cuidado, quer dizer, criei o José, do nascimento até aos 14 meses, altura em que a família tomou conta dele. O José ficou órfão ao nascer. Rodeei-o de todos os cuidados e carinhos; baptizei-o. O meu querido José!


Marta Bernarda
(Voluntária APARF)



terça-feira, 13 de março de 2018

Niassa - Moçambique

A Marta Bernarda, voluntária da APARF, no Niassa – Moçambique há mais de três anos, encontra-se em Portugal, por um período de férias para cuidar da sua saúde.

“O Amigo dos Leprosos” conversou com a Marta que nos explicou um pouco do seu trabalho com os doentes de lepra e crianças desnutridas:

Diz a Marta:

Trato os doentes de Mepapa, Malinde, Iramba, Jó e Netepo. Em todas estas aldeias há enfermos de lepra. Encontro-me com eles uma vez por semana, deixo-lhes medicamentos e algumas orientações. Temos um colaborador, o Senhor Artur, ex-leproso que, apesar de bastante limitado, vai de bicicleta pelas casas para convocar os doentes para o tratamento. De 3 em 3 meses faço uma reunião aos doentes de lepra. Nestas reuniões, entregamos sal e sabão e outras coias básicas. Os doentes apresentam-nos os seus pedidos e expõem-nos as suas necessidades. Agora estão a pedir-nos roupas, cobertores, panelas, enxadas, catanas. É que estes doentes, apesar de bastante debilitados, têm de cultivar alguma coisa na terra, não têm outro meio de sobrevivência.

Em Mepapa já construímos 4 casa para os doentes de lepra e suas famílias. Aqui há mais ou menos 90 doentes na fase de reabilitação.


Há um caso lindo e comovente que me força a conta-lo: um doente com chagas nos pés, não podendo caminhar, isolava-se e fugia da família e de todos. Comprei-lhe uma bicicleta e ele agora anda feliz por toda a parte, não se esconde de ninguém e veio dizer-me: “eu saí do sepulcro, estava morto e agora estou vivo. Estou feliz.”

Marta Bernarda
(Voluntária da APARF)

sexta-feira, 9 de março de 2018

A história do Alfredo

O Alfredo é de Mahipa e já estive com ele várias vezes, mas foi a primeira que mais me impressionou. Encontrava-se de novo num estado completamente lastimável e o cheiro era insuportável. As suas feridas começaram de novo a abrir por falta de cuidados. Tomar banho não é com ele e nem mesmo vir ao posto fazer o penso. O penso deveria ser feito todos os dias mas ele só vem quando lhe apetece. As suas feridas parecem autênticas queimaduras, aliás quando fui revelar as fotos que lhe tirei, as pessoas perguntaram se seria queimadura, e ficaram bastante impressionadas quando a resposta foi – lepra. Não sei como é possível uma pessoa chegar a este ponto...

Sandra Figueiredo
(Voluntária APARF)



segunda-feira, 5 de março de 2018

Ainda Ocua...

No mês transacto comecei, com o enfermeiro, a distribuir medicamentos, calçado e sabão às comunidades que nos estão mais próximas. Por vezes aborrece-me ter de ficar à espera, mas não tenho outra alternativa se não aguardar que uma ou outra estrada esteja transitável ou que alguém decida acabar a construção de uma ou outra ponte iniciada, sabe-se lá quando!

Tirando esses pequenos contratempos, temos tido resultados bastante positivos.


Quando me refiro a resultados positivos estou a falar em relação à adesão das pessoas às concentrações. As concentrações iniciam-se com uma pequena palestra sobre a educação sanitária e de como é a evolução da doença. De seguida é feita a triagem dos doentes que são diagnosticados e, para além de alguns conselhos, é lhes dado o medicamento junto com uma barra de sabão para os casos mais mutilados. Entretanto comprei uma pequena mala de primeiros socorros, pois, em alguns, é necessário fazer pensos. Aqui o mais difícil de encontrar são: ligaduras, luvas e compressas.

Sandra Figueiredo
(Voluntária APARF)

sexta-feira, 2 de março de 2018

Missão de Ocua

Caros amigos da Aparf,

Quando efectuamos as visitas pelas comunidades vêm até nós várias pessoas, não só as que têm lepra, mas com todos os tipos de doenças, desde malária… claro que é para nós muito complicado e difícil dar assistência a todo um povo, mas não é uma situação que nos fica indiferente e vamos tentando fazer o melhor possível levando alguns medicamentos, sabão, e algumas palavras de esperança.

Temos tentado chegar ao maior número de comunidades possível, mas por vezes repletos de buracos que parecem autênticas crateras. Por isso muitas vezes, sempre que existe um centro de saúde perto, nos aconselhamos a irem lá.

Em algumas zonas, que são consideradas como sede, existem pequenos centros de saúde, assim os chamam! Têm tudo menos aspecto disso, a falta de medicamentos, de condições e de higiene fazem destes centros mais um posto de contágio de doenças do que de tratamento de doentes.

Ao visitarmos um destes centros e uma maternidade deparámos que se encontrava encerrado. Era sábado, mas curiosamente com as portas e janelas abertas.

Entrámos. Não se encontrava ninguém lá dentro. Deparámos imediatamente com um cheiro insuportável. Ao olharmos à nossa volta vimos a falta de higiene que tinha aquele local; o chão, as paredes e os materiais completamente sujos sem o mínimo de cuidado, parecia abandonado, e no entanto funciona “normalmente” durante a semana…

Partilho com vocês duas questões que me surgiram ao visitar este local: primeiro, como é possível tratar doentes num centro que se encontra assim? E em segundo, será que aqui não nascem crianças ao sábado? ...

Esta é a realidade de um povo que nasce, cresce e morre esquecido, sem o mínimo de assistência.

Sandra Figueiredo
(Voluntária APARF)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Relatório de Actividades do Projecto “Que Paz?” (1ª parte)

O Hospital de N. Srª da Paz, Missão Católica do Cubal, onde estivemos a desenvolver o projecto “Que Paz?” está organizado da seguinte forma:

- Banco de urgência – onde recorrem diariamente dezenas de adultos e crianças.

- Consulta externa – onde são efectuadas diariamente cerca de 100 consultas de clínica geral, pediatria, ginecologia- obstectrícia e cirurgia (1x/sem) e controlo pré-natal (2x/ sem).

Serviço de internamento com as suas diferentes áreas:
- Pediatria – 5 enfermarias de 15 camas cada (mais berços e macas quando necessário);
- Medicina interna Homens/Mulheres;
- Cirurgia;
- Isolamento – dois quartos para situações contagiosas ou que requerem a ausência de estímulos;
- Maternidade;
- Bloco operatório.
- Centro Nutrição Infantil – onde actualmente se encontram cerca de 80 crianças em tratamento da desnutrição e suas complicações.
- Centro anti-tuberculose Henrique de Ossó – onde são tratados actualmente cerca de 500 doentes com tuberculose, HIV/Sida e doenças oportunistas associadas.

Iniciamos o nosso projecto avaliando com a direcção do hospital (Irmãs Teresianas Teresa López, Milagros, Teresa Romero, Generosa) as necessidades relativamente a áreas do Hospital não cobertas pelos médicos já existentes. Ficou decidido que começaríamos por assumir a Pediatria, dado ser um serviço com uma elevada taxa de ocupação, que abrange um grupo alvo muito heterogéneo (RN a adolescentes) e com uma necessidade de assistência muito específica. Progressivamente, com o evoluir da nossa adaptação, assumimos outras áreas também carenciadas, substituindo a Irmã Milagros durante o seu período de férias em Espanha de Maio a Agosto. Em Agosto/Setembro durante as férias do casal de médicos russo a trabalhar no hospital assumimos ainda duas enfermarias de adultos.

As nossas actividades consistiram no organigrama seguinte:
- Horário de 2ª a 6ª das 7h30m – 16h30m e Sábado das 7h30m às 12h30m.

- Serviço de Pediatria – onde trabalhamos mais especificamente com as enfermarias de cuidados intensivos.

- Apoio à consulta externa – cada um de nós com um dia de consulta externa por semana (Ana 2ª, Pedro 3ª), onde fizemos consulta de clínica geral (engloba todo o tipo de doentes e patologias).

- Apoio ao Banco de Urgência – Sempre que solicitados pelos enfermeiros do banco de urgência para a observação de casos graves ou para o esclarecimento de dúvidas em situações mais complexas.

- Apoio ao CNI – as crianças em tratamento no centro de nutrição são observadas diariamente pelos enfermeiros do centro, cumprindo um protocolo estabelecido para a desnutrição. Todos os dias estes técnicos de enfermagem fazem o rastreio das crianças que irão necessitar de consulta médica. Qualquer um de nós passava diariamente no centro para fazer consultas às crianças previamente seleccionadas (com febre, infecções que não respondem aos tratamentos protocolados, diarreias graves, sem progressão ponderal, etc).

- Consultas de Medicina do Trabalho ao pessoal do Hospital – dado ter-se constatado que alguns trabalhadores teriam tuberculose e outras doenças, foi-nos proposto a elaboração de uma ficha de Medicina do Trabalho e posterior avaliação médica de todos os trabalhadores. Desenvolver esta actividade às 4ª e 5ª à tarde, observando cerca de 12 trabalhadores por semana.

- Colaboração na reformulação dos protocolos de avaliação diagnóstica e orientação terapêutica das patologias mais prevalentes na região (malária, infecções respiratórias, diarreias, doenças sexualmente transmissíveis, etc), que dado o volume de trabalho no hospital ficou por completar.

- No 4º Sábado de cada mês, realizamos uma sessão de formação/avaliação com a equipa de enfermagem de Pediatria com quem trabalhamos. Nesta sessão, além dos temas de formação, tentamos incentivar a avaliação (auto e de grupo) nas perspectivas técnica e motivacional, bem como a participação de alguns elementos das sessões.

- No mês de Julho iniciamos o acompanhamento semanal de um grupo de alcoólicos anónimos no centro de tuberculose. A Ana iniciou em Agosto consultas de psiquiatria para os membros do grupo A.A. ou outros que queriam iniciar um processo de desintoxicação/tratamento do alcoolismo.

- Mensalmente participamos numa reunião de médicos onde se discutem temas de interesse hospitalar.

- Colaboração em alguns serviços administrativos como a tradução e correcção de textos para projectos de financiamento para a instituição hospitalar.

Pedro Manuel Monteiro de Castro Silva (Dr.)
Ana Isabel Santos Marques (Dra.)


(continua...)


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Projecto “Que Paz?” - Angola

À APARF

Tendo sido essa benemérita Associação uma das Entidades que mais contribuiu para a realização do nosso voluntariado de Abril a Dezembro, como médicos no Hospital de Nossa Senhora da Paz, no Cubal, Província de Benguela, Angola, confiado às Irmãs Teresianas, queremos enviar, ao mesmo tempo que o Relatório do que foi esse tempo dedicado aos mais pobres, a nossa saudação cheia de reconhecimento pelo apoio que nos foi dado.

O Projecto “Que Paz?” foi, na nossa opinião e das Irmãs que dirigem esta Obra, plenamente desenvolvido, levando o conforto e a paz a milhares de pessoas que passaram pelas nossas vidas e nos marcaram tão positivamente pelo que damos graças a Deus por esta possibilidade que nos foi dada e que plenificou as nossas vidas.

Já desde cá, sentimos a saudade daquelas pessoas, idosos, jovens e crianças que atendemos, minorando o seu sofrimento na medida das possibilidades que se avolumavam pela dedicação de quantos ali trabalhavam, embora com os escassos meios de que dispúnhamos.

Cremos que o nosso testemunho, parte deste relatório que corresponde a meio tempo da nossa estadia no Cubal, não diminuiu de intensidade no decorrer do restante tempo de permanência ali, o que nos levou a não o refazer.

Por razões injustificadas mas alegadas pela autoridade civil em relação aos nossos vistos que haviam sido cuidadosamente tratados, fomos sujeitos a multas e a antecipar o nosso regresso por uns dias. Um contratempo que nos doeu por momentos, já que tínhamos entre todos, trabalhadores e doentes, planeado viver o Natal no Cubal.

Como verão, também as Irmãs que nos acolheram contribuíram para a eficácia do projecto que levávamos. Com o seu apoio material, social e espiritual, foram para nós uma bênção.

Por tudo reiteramos à Associação o nosso agradecimento e desejamos que possa multiplicar a sua acção benfeitora a tantos jovens que se dispõem a correr a mesma aventura.
Pedro Manuel Monteiro de Castro Silva
Ana Isabel Santos Marques