terça-feira, 24 de abril de 2018

O Menino dos olhos tristes

Lá estão as crianças todas repetindo em coro palavras e frases da professora Teresinha: Livro, Lápis, Bom Dia, Como Está?, Eu Amo O Meu Pai, Eu Amo A Minha Mãe. O que sentirão aqueles 68 órfãos ali presentes que já não têm pai nem mãe? Mas todos participam e aprendem o português. Todos, menos um: lááá no extremo oposto do terreno está um pequenino sentado próximo da fogueira que aguarda o panelão da multimistura, ou como aqui dizem das papas enriquecidas. À primeira impressão, tem um ar apático como se fossem muitos os quilómetros que o afastassem daqueles 50 metros de distância das outras crianças.

“Aquela criança está doente”, dizia-me Alfredo um dos dois monitores (homens!) que gosta tanto das crianças quanto eu.

Mas não, eu já tinha examinado o menino dos pés à cabeça e só lhe encontrei a magreza e o respectivo imenso ventre a desparasitar, acompanhados de um olhar tão triste...

Na hora de comer, começamos a formar as filas das crianças; o menino assiste imperturbável à barafunda organizativa e eu não o incluo nas filas. Vou-lhe entregar um prato cheio de papas e fico a observá-lo pelo canto do olho: serenamente, colher a colher, come a dose toda. Alfredo e eu entreolhamo-nos. Volto a encher o prato e de novo come tudo no mesmo ritmo tranquilo. Um de nós comenta: “Já sabemos qual é a doença dele...” Mais tarde, uma irmã do menino vem buscá-lo e as nossas perguntas sucedem-se quase com sofreguidão: Quem é? Que idade tem? Como se chama? Onde Vive? Então ela conta que são só estes 2 irmãos, ela com 10 e ele com 2 anos, vivem com uma avó e um tio. Não têm pai nem mãe, recentemente falecidos (sida). Alfredo promete-me ir visitar a família e averiguar os factos. Há-de ir e confirmar tudo isto. Eu fico cheia daqueles olhos tristes que me hão-de acompanhar muitas horas. Nas vezes seguintes, não resisto a pegar-lhe ao colo e a acarinhá-lo mais do que aos outros. (aqueles olhos tristes...). Até que um dia chamo o tio e a avó e peço para partilhar o seguinte: 1 semana comigo, 2 com a família. Concordam. Nasce assim (mais) uma experiência maravilhosa! Livro algum conseguiria “contar” como uma criança triste se transforma numa criança feliz, como uma criança engorda 1,200 Kg numa semana, e não mais é aquele menino cheio de silêncio e apatia, e canta e tagarela (dialecto) e desafia-me com grandes risadas... não há descrição possível!

Ao cair da noite, é a hora do mimo: fica triste, não quer brincar, ameaça choramingar, pede colo. Largo tudo o que estou a fazer, instalamo-nos os 2 num sofá, ponho música e ele ali fica no colo, às vezes absorto, outras a brincar com as mãozitas (ou um dos sapatos), nitidamente disfrutando a proximidade física e os mimos que lhe vou dando.

Meia hora depois, sou eu que ponho termo ao encantamento: “Vamos! Já chega de mimo!” Começo a fazer-lhe cócegas e só paro quando o ouço a rir à gargalhada.

De noite, posso percorrer a cama de lés-a-lés que ele me acompanha – “tem que” dormir encostado a mim.

É seropositivo? Não sei. E acho que não quero saber. Por aqui não há retrovirais, o meu carinho é igual, não posso dar mais, nem fazer melhor. Mas o imenso apetite dele enche-me de esperança... um apetite tão inesgotável que eu costumo “reclamar”: pequenino! Tu és a ruína da minha despensa!!!

Ana Maria Oliveira



sexta-feira, 20 de abril de 2018

Mecubúri: Ensino – Escola e Acompanhamento das Meninas do Lar


No início a minha tarefa no ensino era apenas dar explicações às meninas do Lar e acompanhar a sua vida diária, problemas e preocupações. O Lar Feminino de Mecubúri é das Irmãs e acolhe meninas do interior do Distrito para poderem continuar a estudar desde a 6ª até à 10ª Classe. Eu dava explicações de qualquer coisa que tivessem dúvidas, ou na Física e na Química ajudava-as a estudar pelo caderno ou por livros que lá tínhamos.

Depois a Administradora do Distrito, sabendo que sou licenciada em Gestão e havendo falta de professores de Matemática, pediu-me para dar aulas na Escola Secundária. E assim fui professora de três turmas da 8ª Classe, em cada turma tinha cerca de 65 alunos, todos de calça ou saia azul e camisa branca, com muito maior disciplina escolar do que numa turma de 20 ou 30 alunos cá.

Era muito respeitada e consegui que as minhas aulas fossem bem participadas. Geralmente os alunos lá têm medo dos professores, eu consegui quebrar isso nas minhas aulas, e vir ao quadro era para alguns deles um prazer e não um terror.

Outras Actividades

Construção do Muro e Visita de Projectos

Uma das necessidades da Missão era também a construção do Muro de Vedação que protegesse o Lar, a Casa das Irmãs e a Machamba, que eram invadidas por animais, bêbados e ladrões. Então também aí dei a minha ajuda e fiz toda a contabilidade da obra e parte da sua gestão.

Visitei ainda outros Projectos de Luta contra a Lepra para trocar experiências com vista a melhorar o nosso trabalho no Distrito.

Em dois dos projectos que visitei estão também voluntários da APARF: a Sandra Figueiredo, em Ocua, e o Sr. Ângelo Bouça, em Murrupula.

Esta experiência de voluntariado ao serviço dos leprosos e dos mais pobres foi para mim muito agradável e enriquecedora em termos espirituais e humanos.

Gostei muito de lidar directamente com o povo e de trabalhar em equipa com o Enf. Paulo, com as Irmãs e os Padres. Senti-me também muito acolhida por toda a gente do Distrito e a todos agradeço a sua simpatia e acolhimento.

Koxukuro Vanjene athu othene
(Muito Obrigada a todos)

Mphaka Nihiko Nikina
(Até outro dia)

Ana Margarida Azevedo



sábado, 14 de abril de 2018

Mecubúri: Pastoral – Catequese, Jovens, Saúde e Comunidades

Quando cheguei a Mecubúri, como as Irmãs já sabiam que eu era Catequista, membro do Movimento de Jovens Shalom e empenhada a nível paroquial, os primeiros trabalhos que fiz foram logo na pastoral. Comecei, como já referi, a ajudar a Ir. Assunção nos Cursos de Catequistas. Depois foi-me confiado o grupo de Meninas Baptizadas do nosso Lar para eu lhes dar Catequese.

Em seguida formei equipa com a Ir. Sandra para trabalharmos na Pastoral Juvenil. Organizámos cinco encontros de Jovens sobre os temas de cada ano (2003 - Eis a Tua Mãe, 2004 - Queremos ver Jesus), e realizámos três peregrinações juvenis onde subíamos uma das montanhas rochosas perto do centro da Vila. Em 2003 fizemos duas Peregrinações Marianas, uma em Maio (Mês de Maria) rezando pelo caminho os mistérios Gozosos, outra em Agosto (Mês da Padroeira da Paróquia - Nª Sª da Assunção) rezando e representando os novos mistérios propostos pelo Papa – Mistérios Luminosos. Em 2004 fizemos uma Peregrinação Quaresmal no primeiro Sábado da Quaresma, foi uma Via Sacra Jovem representada e meditada. Em cada peregrinação participaram entre 50 a 70 jovens.

Estive também a promover a Pastoral da Saúde, em Equipa com a Ir. Cristina, Enfermeira de Saúde Materno-Infantil. Realizámos três Encontros com os Responsáveis Paroquiais da Saúde onde ensinámos e incentivámos diversas formas de melhorar a saúde, através de uma boa higiene, alimentação adequada, recurso atempado aos Postos de Saúde, etc. Falámos sobre os problemas de Saúde de cada Zona e da Paróquia em geral, procurando a melhor resolução para cada um. Aconselhámos e incentivámos ao acolhimento do doente e à oração por ele e com ele, sempre numa perspectiva cristã. Promovemos também a Comemoração do Dia Mundial do Doente (11 de Fevereiro) com Celebração de Eucaristia no Centro de Saúde de Mecubúri, debaixo de uma mangueira, e celebrações em todas as comunidades cristãs que a pudessem realizar.

Eu e a Ir. Cristina participámos ainda na Semana de Estudos sobre Pastoral da Saúde, no Anchilo, onde aprendemos novos conceitos sobre Pastoral da Saúde, a sua prevalência em relação à Pastoral do Doente, e aprendemos novas formas de acolher e consolar os doentes.

Aos Domingos íamos à Celebração da Palavra nas Comunidades. A equipa missionária abrange duas Paróquias – Mecubúri e Muite – que corresponde a todo o Distrito, e tem ao todo mais de 200 comunidades. Então para podermos visitar mais comunidades ao mesmo tempo escolhíamos uma zona e íamos ficando pelo caminho. Por exemplo, uma vez estivemos em 6 comunidades no mesmo dia, duas comunidades do centro da vila, onde estiveram duas Irmãs, e 4 comunidades distantes: na primeira saiu o Pe. Muririua, na segunda eu, na terceira o Pe. Constantino, na quarta a Ir. Assunção que levava o carro. Nas Comunidades onde vão os Padres há Eucaristia, onde ia eu ou as Irmãs há apenas Celebração da Palavra e embora lá todos possam falar na Partilha da Palavra (homilia) se nós estávamos tínhamos que partilhar também e aproveitávamos para dar alguns conselhos e alguma catequese.

A Pastoral lá não é fácil de fazer, devido à distância, ao analfabetismo, à mistura dos valores cristãos com os tradicionais, às crenças nos feiticeiros e na força dos antepassados, etc. Mas é muito mais agradável. Lá, as pessoas têm sede de Deus e a simplicidade com que vivem torna as Comunidades mais vivas, activas e participadas: qualquer pessoa pode partilhar o que ouviu das leituras ou pode fazer uma prece na Oração dos Fiéis. Nos tempos festivos as celebrações são bem animadas pela música e pela dança. No ofertório cada um pode trazer aquilo que produziu na sua machamba (terreno onde se cultiva tudo o que é necessário, ou o que se pode). Uma celebração pode chegar a demorar 3 horas sem nos cansarmos de participar nela.





terça-feira, 10 de abril de 2018

Mecubúri: Saúde – Assistência aos doentes, Formação e Sensibilização

Comecei a trabalhar em equipa com o Enfermeiro Paulo. Juntos fomos às Concentrações de Leprosos em vários pontos do Distrito e às Escolas fazer Acções de Sensibilização sobre a lepra.

a) Concentrações de Leprosos

Nas Concentrações juntam-se os doentes por zonas de residência. Nós fazemos o registo dos doentes leprosos, a distribuição dos medicamentos, a avaliação da evolução de cada um de 3 em 3 meses, consulta de casos novos, e damos alguns esclarecimentos e conselhos sobre o tratamento, a cura e as complicações da Lepra. Nas Concentrações em que estive presente, quase sempre acompanhada pela Ir. Delfina, assim como em algumas outras, distribuímos bens essenciais à Saúde e ao melhor tratamento dos doentes de Hanseníase: sabão, açúcar, sal e mantas no tempo frio, que servem também de incentivo à continuação do tratamento. A gratidão das pessoas percebe-se no seu sorriso quando aquelas mãos em garra se estendem para receber alguma coisa.

Durante estes 15 meses de trabalho em Mecubúri (de Janeiro de 2003 a Março 2004), eu e o Enf. Paulo, tivemos “em mãos” um total de 271 doentes de hanseníase (75 PauciBacilares – Doentes com poucos bacilos causadores da Lepra –  e 196 MultiBacilares – Doentes com muitos bacilos), dos quais 130 estavam já em tratamento no início de 2003 (27 PB e 103 MB), 128 iniciaram como casos novos (47 PB e 81 MB), e 13 como reentrados (1 PB e 12 MB). Receberam alta de tratamento 160 doentes (56 PB e 104 MB), abandonaram o tratamento apenas 3 (1 PB e 2 MB), 4 faleceram por vários motivos (1 PB e 3 MB), tendo permanecido em tratamento 104 doentes (17 PB e 87 MB), no final de Março de 2004 .

b) Acções de Sensibilização

Sabem o que é a Lepra? Como se transmite? Como se manifesta? Quais as complicações? Como nos devemos defender? Como se trata? ... Muitos de vós, aposto que não sabem, assim como a grande maioria dos alunos e professores a quem falámos.

No início, quando eu cheguei a esta linda terra de missão, pensava que pelo menos professores, alunos, funcionários públicos, etc. saberiam alguma coisa sobre esta doença que tanto afecta esta nossa província de Nampula. Mas há cerca de oito meses, quando um aluno meu ia lá à Missão para ter explicações, eu vi as suas manchas, fiz-lhe o teste de sensibilidade e confirmei que tinha lepra MultiBacilar. Começou logo a fazer tratamento, e agora, passados 8 meses, as suas manchas já desapareceram quase todas e daqui a 4 meses estará curado (o tratamento dos MB é de 12 meses). 

Este caso fez-me pensar que os alunos precisam de ser informados sobre a Lepra. E assim programei, em conjunto com o Enf. Paulo, e pedindo autorização ao Director Distrital da Educação e à Directora Distrital da Saúde, uma Acção de Sensibilização para as Escolas, onde privilegiámos as Escolas com alunos mais crescidos (a partir da 5ª Classe) que nos entendem melhor.

Fomos a seis Escolas do Distrito:
- Escola Secundária de Mecubúri (da 8ª à 10ª Classe) onde falámos a cerca de 1400 alunos;
- 4 Escolas Primárias Completas (da 1ª à 7ª Classe) abrangendo cerca de 2300 alunos (EPC de Naípa - 100 alunos, EPC de Momane - 250 alunos, EPC de Mecubúri Sede - 1800 alunos, EPC de Muite - 150 alunos)
- Escola Primária n.º 1 de Mecubúri Sede (da 1ª à 5ª Classe) onde contámos com cerca de 100 alunos.

Das EPC do Distrito só ficaram a faltar duas, a que não conseguimos ir porque as condições das estradas não permitiram.

Em todas as Escolas o esquema era mais ou menos o mesmo. 
- Começávamos com uma canção (música “Todos os patinhos”):
“Todas as Crianças acabam de brincar, acabam de brincar,
Vão tomar um banho e a sua pele olhar, vão tomar um banho e a sua pele olhar.
É que é preciso a Lepra acabar, a Lepra acabar,
Se tivermos manchas é preciso tratar, se tivermos manchas é preciso tratar.”
 - Depois falávamos sobre a Lepra, mostrando imagens, dizendo como se transmite, ensinando a distinguir as manchas, explicando o tratamento e cuidados a ter, respondendo às perguntas essenciais que vos coloquei no início. E esclarecendo também que o doente de lepra pode fazer toda a vida normal em família e em sociedade, só precisa é de fazer o respectivo tratamento.
- Por fim abríamos um espaço para dúvidas e distribuíamos uns folhetos explicativos para os alunos que estavam e para os que faltavam também.

Foi uma Acção muito positiva. Os alunos gostaram e sei de alguns que chegaram a casa e logo começaram a contar tudo à sua família. Este era também um dos objectivos, uma vez que muitas vezes os filhos já ensinam os pais, porque sabem ler e os pais não. Agora estamos à espera que o número de consultas de detecção de lepra aumente e que mais doentes comecem a fazer tratamento.

Esta foi uma actividade muito agradável de fazer, e acho que até uma maneira bonita de me despedir desta gente e destas crianças tão lindas, sorridentes e carinhosas. Depois desta ida às escolas quando eu passava nos bairros ou perto da escola sempre ouvia as crianças, só por me verem passar, a falar de Lepra ou a cantar “Todas as Crianças...”.

(continua...)





sexta-feira, 6 de abril de 2018

15 meses de Missão em Mecubúri - Nampula - Moçambique

Moçambique que é o 3.º país do Mundo mais afectado pela Lepra, e concretamente a Provincia de Nampula, tem cerca de 70% dos leprosos do país. Dentro desta provincia, foi no Distrito de Mecubúri que a APARF me colocou a realizar o meu desejo de ir em Missão para cuidar de Leprosos.

Como preparação para este trabalho, participei, em 2001, no Curso de Leprologia para Pessoal Paramédico, no sanatório de Fontilles, em Alicante – Espanha. Neste cursointensivo aprendemos, na teoria e na prática, um pouco de tudo sobre o Bacilo de Hansen (bacilo causador da Lepra): como detectar, como diagnosticar, como efectuar a análise clínica, como prevenir, como tratar, quais os medicamentos a utilizar e com que dosagem, como reabilitar o doente com complicações de Lepra, outras doenças parecidas, etc.

Assim, depois de acabar a minha licenciatura em Organização e Gestão de Empresas e de estagiar profissionalmente numa empresa durante 7 meses. Depois de 10h30 de avião para Maputo, uns dias de espera lá e 2h de avião para Nampula, cheguei à Província que foi minha durante 15 meses. Dois dias depois, e após uma longa viagem de LandRover por caminhos de terra batida e lama, passando por 36 pontes e andando debaixo de chuva, percorremos em 2 horas os 84Km que nos levam ao nosso humilde Distrito de Mecubúri. Foi no dia 27 de Janeiro que a Comunidade das Irmãs Servas de Nossa Senhora de Fátima me acolheu carinhosamente para partilhar com elas toda a vida de Missão durante estes 15 meses. Na comunidade passámos a ser cinco: Ir. Assunção (agora substituída pela Ir. Carmo), Ir. Delfina, Ir. Sandra, Ir. Cristina, e Ana Margarida. Na equipa missionária éramos sete, nós as cinco mais os padres: Pe. Constantino e Pe. Muririua.

Logo que cheguei comecei a colaborar nos trabalhos de Pastoral, ajudando a Ir. Assunção nos cursos de catequistas. Depois apresentei-me ao Serviço na Saúde, junto do Enfermeiro Paulo Rosário, Supervisor Distrital do sector ELAT/ELAL (Estratégia de Luta Anti-Tuberculose / Estratégia de Luta Anti-Lepra), no dia 30 de Janeiro de 2003, no Centro de Saúde de Mecubúri. No mesmo dia comecei também a acompanhar o estudo das meninas que tínhamos no Lar Feminino. Mais tarde a Administradora do Distrito pediu-me para dar aulas de Matemática por haver falta de professores na Escola Secundária, e apresentei-me na escola a 17 de Fevereiro. Assim, a minha vida em missão teve três áreas principais de trabalho: Saúde, Pastoral, e Ensino.



segunda-feira, 2 de abril de 2018

15 meses de Missão em Mecubúri

Moçambique que é o 3.º país do Mundo mais afectado pela Lepra, e concretamente a Provincia de Nampula, tem cerca de 70% dos leprosos do país. Dentro desta provincia, foi no Distrito de Mecubúri que a APARF me colocou a realizar o meu desejo de ir em Missão para cuidar de Leprosos.

Como preparação para este trabalho, participei, em 2001, no Curso de Leprologia para Pessoal Paramédico, no sanatório de Fontilles, em Alicante – Espanha. Neste cursointensivo aprendemos, na teoria e na prática, um pouco de tudo sobre o Bacilo de Hansen (bacilo causador da Lepra): como detectar, como diagnosticar, como efectuar a análise clínica, como prevenir, como tratar, quais os medicamentos a utilizar e com que dosagem, como reabilitar o doente com complicações de Lepra, outras doenças parecidas, etc.

Assim, depois de acabar a minha licenciatura em Organização e Gestão de Empresas e de estagiar profissionalmente numa empresa durante 7 meses. Depois de 10h30 de avião para Maputo, uns dias de espera lá e 2h de avião para Nampula, cheguei à Província que foi minha durante 15 meses. Dois dias depois, e após uma longa viagem de LandRover por caminhos de terra batida e lama, passando por 36 pontes e andando debaixo de chuva, percorremos em 2 horas os 84Km que nos levam ao nosso humilde Distrito de Mecubúri. Foi no dia 27 de Janeiro que a Comunidade das Irmãs Servas de Nossa Senhora de Fátima me acolheu carinhosamente para partilhar com elas toda a vida de Missão durante estes 15 meses. Na comunidade passámos a ser cinco: Ir. Assunção (agora substituída pela Ir. Carmo), Ir. Delfina, Ir. Sandra, Ir. Cristina, e Ana Margarida. Na equipa missionária éramos sete, nós as cinco mais os padres: Pe. Constantino e Pe. Muririua.

Logo que cheguei comecei a colaborar nos trabalhos de Pastoral, ajudando a Ir. Assunção nos cursos de catequistas. Depois apresentei-me ao Serviço na Saúde, junto do Enfermeiro Paulo Rosário, Supervisor Distrital do sector ELAT/ELAL (Estratégia de Luta Anti-Tuberculose / Estratégia de Luta Anti-Lepra), no dia 30 de Janeiro de 2003, no Centro de Saúde de Mecubúri. No mesmo dia comecei também a acompanhar o estudo das meninas que tínhamos no Lar Feminino. Mais tarde a Administradora do Distrito pediu-me para dar aulas de Matemática por haver falta de professores na Escola Secundária, e apresentei-me na escola a 17 de Fevereiro. Assim, a minha vida em missão teve três áreas principais de trabalho: Saúde, Pastoral, e Ensino.



domingo, 1 de abril de 2018

Até um dia, Cubal

O Pedro e a Ana de hoje não são certamente os mesmos que partiram para o Cubal. Só o tempo dirá o quão/como diferentes nos tornámos. Podemos, contudo, afirmar desde já que estamos mais fortes e com mais amor para dar pois foi muito amor que recebemos… Como é difícil pôr por palavras uma imagem que seja de tudo quanto vivemos! Que dias simultaneamente tão duros e tão felizes partilhámos com os mais pobres e com a Comunidade das Irmãs Teresianas. No meio de tudo o mais difícil para nós terá sido o ter que lidar diariamente com a morte e o sofrimento extremo e não se deixar imobilizar por isso, porque logo na cama ao lado há outra vida no limite a precisar de toda a atenção. Sem falsas modéstias, fomo-nos adaptando e soubemos responder, dentro das nossas capacidades e das limitações locais, às solicitações a que fomos sendo chamados.

No Cubal é tal a desproporção entre número de doentes e pessoal médico que podemos verdadeiramente dizer que o trabalho nunca acaba. Perante um mundo tão desigual surge imediatamente a pergunta: “porquê?”… mas esta, na urgência do momento, dá logo lugar a uma outra: “que podemos fazer?”. E o que podemos fazer nunca sendo suficiente é certamente mais uma força a juntar-se a outras que insistem em contrariar esse desequilíbrio.

Obrigado Pai por teres sido a nossa força. Obrigado a vós todos quantos permitis que este projecto (que certamente não acabará aqui) se pudesse ter realizado.

Bem hajam.
Pedro e Ana

sexta-feira, 30 de março de 2018

“… longe um arado prossegue no tumulto da incerteza…”

No dia em que pela primeira vez fiz o caminho de bicicleta de casa até à Missão pensei que aí estava simbolizado o desafio que sinto ser-me feito diariamente: queres chegar à Missão? Então percorre primeiro este caminho… E ao longo do percurso Ele vai-me presenteando com tudo o que preciso: o pão, o descanso, o amor, rostos e vidas concretas, “bom dia! Walale?”, o sol, a terra em todo o seu esplendor, a saúde, a Ana… e depois só me pede uma coisa: que ame! Ele que me ama infinitamente, pede-me que depois eu o faça tanto, ou tão bem, quanto me for possível em cada dia… tanto quanto maior for a minha capacidade de não aprisionar em mim todo o amor que me dá… E amanhã outra vez… E depois…

Não é fácil pôr por palavras tudo o que por aqui vou vivendo e experimentando. Sei que estou muito feliz por estar aqui e que hoje não queria estar em nenhum outro lado… Este povo irmão tão sofrido, a Comunidade das Irmãs tão provocadoramente “humana e divina”, a maravilha de poder partilhar esta experiência com a Ana, a ausência de tanta coisa conotada com o dito “mundo desenvolvido” e tantas outras pequenas grandes coisas são insistentemente uma feliz e diversa provocação…

Às vezes chego ao fim do dia muito cansado e a sentir que gostaria de ter um pouco mais de tempo livre para pensar/reflectir/integrar cada dia… mas sito também que no silêncio Ele me vai construindo. Obrigado, Ir. Júlia, por tudo quanto tem feito para que hoje pudéssemos estar aqui.

Muito unido,
Cubal, 
Pedro

segunda-feira, 26 de março de 2018

Dois médicos, dois testemunhos

(http://voluntariadoaparf.blogspot.pt/2018/02/relatorio-de-actividades-do-projecto.html)
Continuação...

”Concedei-me, Senhor, serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir umas das outras”.

Descobri esta “oração de serenidade” nos livros dos A.A., enquanto preparava uma das sessões de grupo. Decido iniciar com ela o meu testemunho, porque parece fazer todo o sentido, neste momento em que procuro por entre o meu léxico verbal associações que me permitam exprimir e partilhar muito do que vou experimentando.

O Cubal é uma terra linda, muito verde, que me inspira sentimentos apaziguadores, bem como de assombro!...

A Missão Católica aparece, como por magia, revestida ao largo por vários montes, quando pelas 7 horas pedalo na minha bicicleta o caminho de terra batida que liga a cidade à missão. Falo em “magia”, porque é o que se sente quando progressivamente nos vamos apercebendo dos ritmos, cores, cheiros, disposições que a compõem… o hospital, onde se atendem diariamente centenas de doentes e com uma organização estrutural que não julguei encontrar no interior de Angola; os “complementos” do hospital, as cozinhas onde se prepara a alimentação dos doentes e acompanhantes, a carpintaria, a rouparia, a farmácia interna e externa, o armazém dos medicamentos, o laboratório, etc, etc; o bairro de São José construído tijolo a tijolo para acolher refugiados, idosos, crianças e cuja subsistência é auxiliada pelas Irmãs com incentivos continuados de aprendizagem da autossubsistência, autonomia e dignidade; a comunidade das Irmãs Teresianas… doçura, leveza, alegria… a fé a transbordar por todos os poros. A primeira imagem que tive foi a de uma comunidade de “formiguinhas trabalhadoras”, incansáveis, alegres, dia a dia unindo esforços, encontrando soluções, tornando possível o inimaginável; as crianças e jovens a caminho da escola, ou simplesmente a brincar à porta das casas, as mulheres cobertas de panos de todas as cores com as crianças às costas e os fardos à cabeça, num exercício de equilíbrio que desafia as leis da gravidade, os homens conduzindo triunfantemente as suas motos, outros de bicicleta, outros a pé, outros transportando doentes nos cangulus, os cães, as galinhas, os cabritos, as várias músicas de fundo, quizomba, baladas brasileiras e música comercial importada do ocidente… tudo isto me entra diariamente pelos olhos estimulando todos os meus sentidos, alojando-se progressivamente no meu coração.

É assim a missão de Cubal, o local onde há alguns meses atrás decidi juntamente com o Pedro “viver” o projecto “Que Paz?” Num momento em que o mundo vivia suspenso na questão do ataque ao Iraque pelos E.U.A. (que acabou por acontecer com os resultados que sabemos) partíamos com vontade de experimentar outras vias, outros caminhos para a paz, de explorar outras formas de comunicação ente os povos que não a opressão bélica, a imposição cultural, politica e económica. Partíamos à procura de um sentido mais profundo e comprometedor para a nossa vida de Homens e também de Cristãos. Partíamos movidos pelo “amor” que continuamente nos desinstala do “bem-estar” das nossas comodidades, nos provoca e um dia nos fez sonhar… como dizia o poeta “pelo sonho é que vamos…” E fomos.

Hoje escrevo estas palavras sem censuras, espontaneamente, com toda a verdade que sei, porque é assim que a vida deve ser… um acto de amor espontâneo!

Trabalho no hospital da missão, essencialmente no serviço de pediatria e centro de nutrição infantil. Diariamente observo e trato cerca de 30 crianças. E tudo poderia ser simples terminando aqui o meu testemunho, se não estivesse no interior de Angola, onde a realidade reveste nuances até então minhas desconhecidas. De manhã, quando saio de casa, não sei se vai ser uma manhã “normal” com situações graves mas controláveis, ou se uma das duas crianças já faleceram durante a noite, ou se outras irão morrer-me nos braços, ou se os pais de uma outra com diarreia constantes decidiram fugir com a criança porque já estavam “cansados” de estar no internamento, ou ainda se outros deram tratamento tradicional às escondidas no internamento e a criança agravou o seu estado, ou se não contaram se teve duas ou vinte dejecções e não deram soro durante toda a noite, ou arrancaram a sonda para a alimentação porque acham que faz mal, ou se duas crianças com anemia grave e não tendo doadores, os próprios pais recusaram a doação por motivos absurdos, ou se vai chegar ao banco de urgência uma criança doente há mais de dois meses, que já fez tratamento umbundo e está num estado lastimável de desnutrição, desidratação, infecção da pele, dos pulmões, insuficiência hepática, renal, etc, etc, etc, Pela manhã enquanto pedalo até à missão, não sei se vou rir, se vou chorar, se vou sentir revolta, impotência, frustração, angústia, pena, ternura, alegria… não sei se vou desejar ficar para sempre, ou ter vontade de fugir pela porta fora a meio da manhã. Pela manhã, pela tarde, pela noite… tudo é tão intenso!... O coração que se aperta em sintonia com uma mãe que acaba de perder o seu filho, a alegria tremenda por uma criança que acabou de sair de como e nos sorri pela primeira vez, a revolta perante um povo que foi privado de tudo o que é básico e essencial e continua actualmente a ser explorado, vendido, muitas vezes não tendo essa consciência de que tem direito à saúde, à educação, a uma vida com dignidade, a impotência perante a falta de “tudo” e a angústia de trabalhar com meios tão precários que me limitam a avaliação diagnóstica bem como as possibilidades de tratamento.

Os primeiros meses foram dominados por esta mistura avassaladora de emoções intensas e confusas. Foram também tempo de adaptação ao clima, à ausência de água corrente e potável e ao ritual dos baldes, panelas e filtro, à falta de luz diária, ao ritmo de vida casa-trabalho, trabalho-casa, à ausência de tudo o que é “distracção”, informação, comunicação, às saudades da família e amigos.

O projecto está a ser uma experiência (atrevo-me a um neologismo, bem ao jeito do Mia Couto) “surpreendapaixonástica” a todos os níveis. De tempos a tempos vou revendo as minhas vivências e pareço destrinçar melhor o essencial do dispensável, perceber melhor o que me faz feliz, no fundo o que sou e do que realmente preciso para viver.

Neste momento o tempo e o vivenciar repetido das situações, os laços que vou estabelecendo com a terra, a cultura e as pessoas vão permitindo a integração da tempestade de afectos e redefinindo estares e atitudes mais adaptadas e estruturadas.

Desta forma vou continuando nesta “luta” diária pela vida. Lado a lado com as gentes desta terra vou dando passos, pequenos passos que procuram sentidos, caminhos outros para a Paz.


Cubal – Ana Marques


quinta-feira, 22 de março de 2018

Desnutrição

Reparem bem na expressão desta criança. Não, não é fome: é o terrível cortejo que a acompanha e que origina a disfunção de muitos órgãos – coração, pâncreas, fígado – a disfunção de sistemas como o cardiovascular, urinário, gastrointestinal, endócrino, imunitário, circulatório, glandular… “Trocado por alguns miúdos”, a circulação sanguínea está reduzida, o coração funciona mal (muitas crianças morrem de ataque cardíaco), os rins são ineficientes – daí as infecções urinárias, também os intestinos cujas mucosas estão atrofiadas, são facilmente nas suas funções; os músculos respiratórios são facilmente fatigados, falta energia à criança; as glândulas sudoríparas, lacrimais e salivares estão atrofiadas, o fígado não tem capacidade para metabolizar, eliminar toxinas… Isto até parece um artigo de medicina!!!

Só queria que entendessem que atrás destes “palavrões” vem o tal cortejo. Diarreia, anemia, desidratação, baixa temperatura corporal, edemas, otites (muito frequentes), úlceras/chagas na pele, desenvolvimento mental e comportamental retardado, etc, etc, etc…!

Olho para as crianças como esta e fico sem palavras. Sei que ali já não habita fome, senhoria de inquilinos como o frio, a confusão e a dor, tanta…!

Olhem de novo para esta criança: que outra expressão poderia ter este ar assustado? Como se ela nos perguntasse: Porquê?

As respostas estão nas reflexões de cada um. E também na nossa consciência. 

Do Chibuto com amizade para todos os Aparfianos. Estamos juntos!

Ana Maria