sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Projecto “Que Paz?” - Angola

À APARF

Tendo sido essa benemérita Associação uma das Entidades que mais contribuiu para a realização do nosso voluntariado de Abril a Dezembro, como médicos no Hospital de Nossa Senhora da Paz, no Cubal, Província de Benguela, Angola, confiado às Irmãs Teresianas, queremos enviar, ao mesmo tempo que o Relatório do que foi esse tempo dedicado aos mais pobres, a nossa saudação cheia de reconhecimento pelo apoio que nos foi dado.

O Projecto “Que Paz?” foi, na nossa opinião e das Irmãs que dirigem esta Obra, plenamente desenvolvido, levando o conforto e a paz a milhares de pessoas que passaram pelas nossas vidas e nos marcaram tão positivamente pelo que damos graças a Deus por esta possibilidade que nos foi dada e que plenificou as nossas vidas.

Já desde cá, sentimos a saudade daquelas pessoas, idosos, jovens e crianças que atendemos, minorando o seu sofrimento na medida das possibilidades que se avolumavam pela dedicação de quantos ali trabalhavam, embora com os escassos meios de que dispúnhamos.

Cremos que o nosso testemunho, parte deste relatório que corresponde a meio tempo da nossa estadia no Cubal, não diminuiu de intensidade no decorrer do restante tempo de permanência ali, o que nos levou a não o refazer.

Por razões injustificadas mas alegadas pela autoridade civil em relação aos nossos vistos que haviam sido cuidadosamente tratados, fomos sujeitos a multas e a antecipar o nosso regresso por uns dias. Um contratempo que nos doeu por momentos, já que tínhamos entre todos, trabalhadores e doentes, planeado viver o Natal no Cubal.

Como verão, também as Irmãs que nos acolheram contribuíram para a eficácia do projecto que levávamos. Com o seu apoio material, social e espiritual, foram para nós uma bênção.

Por tudo reiteramos à Associação o nosso agradecimento e desejamos que possa multiplicar a sua acção benfeitora a tantos jovens que se dispõem a correr a mesma aventura.
Pedro Manuel Monteiro de Castro Silva
Ana Isabel Santos Marques



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Missão de Murrupula - Nampula - Moçambique

Amigos da APARF, Sócios, Benfeitores, Colaboradores Anónimos,

Um ano terminou e outro começa; em meu nome pessoal e de todos aqueles aos quais de algum modo eu consigo levar e dar algo, o nosso “BEM HAJAM”.

Desejamos para todos vós um ano de paz, saúde, amor, fraternidade, rezamos a Deus pedindo-lhe as maiores bençãos e graças para todos vós, irmanados no grande mentor que foi e continua a ser Raoul Follereau.

Terminado que foi o ano e feito um resumo, transitam principalmente duas preocupações: 1ª - não ser fácil chegar àqueles doentes afectados dos membros principalmente pés, com feridas, consequências de não terem sido tratados ou em estado já crítico, para os quais a única coisa a fazer era trazê-los do seu “habitat” e proporcionar-lhes o bem-estar possível, tarefa difícil e que necessitava de grande envolvimento a vários níveis; 2ª - crianças desnutridas e idosos para não falar genericamente em fome e pobreza absoluta.

No programa ELAT/ELAL, os serviços de saúde têm esses voluntários mais junto das populações, são eles o pivôt de todo o processo, as populações são dispersas e são eles que vão verificando e alertando para os sinais de manchas, concentrando-as depois num local para serem então observadas. Estes voluntários “Activistas” recebem, quando calha, a participação de 50.000 meticais o que equivale a dois euros; alguns deles têm bicicleta que foram oferecidas aos Serviços de Saúde, são poucas e danificadas. Vendo o trabalho que estes activistas prestam à comunidade, um dos meios de os incentivar e estimular era proporcionar-lhes este rudimentar mas bastante útil, meio de transporte pois cada um na sua área percorre desde os 30 Kms a 70 e mais para contactar a população e levar o medicamento aos que faltam à concentração. Assim, tomo a liberdade e a ousadia de apelar à vossa generosidade para esta iniciativa de oferta de bicicletas, 500 euros que sejam, já se compram 10 ou 12 bicicletas, que tal? Vamos a isso? Bem hajam.

É mais um modo de ajudar no combate à Lepra. Junto uma foto dos remotos pontos de se chegar e como tal apoiar, mas há piores estados do que a foto apresenta.

Passando para outro capítulo menos pesado: Tive a oportunidade de visitar e conhecer a nossa amiga colaboradora e voluntária Sandra, em Ocua, está bem de saúde e alegre por ali estar, ainda não teve malária ao contrário da Guida (Mecubúri) que já repetiu 3ª dose; quanto a mim, graças a Deus, tenho sido de pedra, ferro e cimento, tive apenas uma crise de coluna que me imobilizou alguns dias.

Neste ponto do globo onde a lua não é falsa, o sol gira ao contrário, o relógio do tempo avança vertiginosamente, mas o relógio da vida parece ter parado uns 50 (cinquenta) anos atrás, nem tudo é mau, também acontecem coisas boas, como por exemplo consegui de um outro benfeitor doze bicicletas.

Fico por aqui, desejando a todos uma Santa Páscoa.
Grande abraço de todos para todos e um até breve.
Vosso amigo
Ângelo Bouça - Voluntário da APARF



domingo, 11 de fevereiro de 2018

Dia Mundial do Doente

Missão de Mecubúri - Nampula - Moçambique

11 de Fevereiro – Dia Mundial do Doente
10 de Fevereiro às 16h – Eucaristia do Doente no Hospital de Mecubúri

A Equipa da Pastoral da Saúde (Eu e  Ir. Cristina) sugeriu e a Equipa Missionária e a Directora do Hospital aceitaram. E assim pudemos fazer algo do diferente para marcar o Dia do Doente.

Preparámos tudo lá na Missão, as meninas do Lar ensaiaram os cânticos e prepararam molhos de lenha para o ofertório, a Ir. Delfina e o jovem Agostinho prepararam as leituras, o pessoal do Hospital escolheu uma sombra e lá prepararam o espaço.

De manhã afixei cartazes em português e em macua por todos os serviços. Às 15h visitámos os doentes hospitalizados a convidá-los para a Missa, quem podia levantar-se, ou a dizer-lhes que estaríamos a rezar por eles. As comunidades cristãs mais próximas também foram avisadas. E foi assim que pelas 16h iniciámos a Eucaristia, à sombra da mangueira e com cerca de 50 a 70 pessoas, entre Doentes, Enfermeiros, Serventes, a Direcção do Hospital, a Equipa Missionária e muitos Cristãos que quiseram ser solidários e rezar com e pelos doentes.

Foi uma iniciativa que todos gostaram, os Doentes principalmente, pois ficaram a saber que têm um dia próprio para eles.

A Direcção Distrital da Saúde até pediu para repetirmos noutros anos.

No final visitámos novamente todos os doentes hospitalizados para lhes entregar um postal com uma frase consoladora, um pacote de açúcar e uma barra de sabão.

Os doentes agradeceram muito e isso podia perceber-se também no seu sorriso e nos olhos a brilhar.

Ana Margarida – Voluntária APARF



domingo, 4 de fevereiro de 2018

Missão de Ocua - Chiure/Pemba - Moçambique

Caros amigos da Aparf, desde já vos quero agradecer por terem contribuído para a compra de uma viatura, que tanta falta nos fazia. Com esta viatura poderemos chegar a muitos mais doentes espalhados pelo mato. Muitos deles já não têm como chegar aos centros de saúde, quando estes existem, pois sabemos de casos muitos graves de mutilações. Assim com este meio estou certa que conseguiremos fazer um melhor acompanhamento destes casos. Um grande Bem-Hajam a todos vós.

Ao efectuar as visitas nas comunidades, onde iniciamos por fazer o diagnóstico a todos os doentes que iam aparecendo nos encontros deparei com todo o tipo de doentes. Numa dessas comunidades, mais precisamente na Zona de Napela, ao fazer o diagnóstico dos doentes que ali se encontravam houve um homem que se aproximou e disse que ele sabia que não tinha a doença mas a sua mulher que a tinha, então foi-lhe pedido que a fosse buscar. Qual não foi o meu espanto quando o vi aproximar com uma criança pela mão. A sua mulher tinha ido tratar da machamba, as nossas hortas aí de Portugal, e não a tinha encontrado, mas trazia a sua filha para lhe ser feito o diagnóstico. E assim foi feito. Ao levantar a camisola que trazia vestida deparei com uma pequena mancha nas costas e logo a seguir uma outra numa das pernas - o diagnóstico foi feito, a criança tem lepra! Fiquei eu própria surpreendida pois esta criança, de nome Palmira, tem apenas seis anos de idade! Eu própria não esperava encontrar em crianças tão pequenas... e penso mesmo que as pessoas hoje em dia acham que só acontece a pessoas já com uma certa idade. Para mim esta criança veio provar que não é bem assim.

No dia mundial dos leprosos fomos, eu, a Ir. Palmira e o enf. Saíde - responsável pelos doentes de lepra na Zona de Ocua e Chiúre, a essa mesma Zona de Napela, para sensibilizar as pessoas que ali vivem para esta doença. No final apareceram algumas pessoas para serem vistas, mas felizmente só duas delas é que tinham a doença. Também nesse dia se encontrava presente a pequena Palmira a qual me chamou imediatamente a atenção. O enfermeiro já estava a par da situação e imediatamente depois de também ele confirmar a doença, lhe administrou os primeiros medicamentos. Para mim foi a melhor celebração que o dia Mundial dos Leprosos poderia ter tido porque finalmente a pequena Palmira iniciou o seu tratamento e como a doença foi encontrada ainda no seu início, em seis meses será curada!

Sandra Figueiredo - Voluntária da APARF



quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Testemunha de um doente

Eu comecei com o tratamento de lepra. Esta doença, no início, não me preocupou, eu pensava que não era nada. Mas as pessoas disseram que eu tinha lepra, que estas manchas eram próprias da lepra. Eu não conhecia nada isso, só ouvi falar de lepra mas nunca me interessei. Aqui na minha aldeia várias pessoas têm esta doença por isso cada mês vem o enfermeiro explica sempre que logo que começamos a tomar os medicamentos a doença pára, não vai continuando no nosso corpo. Os medicamentos que recebemos não se pagam, isso nos ajuda muito porque não podemos pagar. Também conforme me disse o enfermeiro, lá em casa, sempre controlamos as nossas crianças para ver se têm manchas. Ainda não sei onde apanhei esta doença, pois sou a única da minha família, mas agora as manchas já estão a desaparecer.

Doente de Lepra

Concentração de doentes de lepra que esperam consulta

domingo, 28 de janeiro de 2018

Dia Mundial dos Leprosos

"No Dia Mundial dos Leprosos houve dupla festa em Mepapa – por um lado, passagem da Maratona 2000, que como é óbvio, escolheu Mepapa para esse dia; por outro lado a Direcção Distrital de Saúde (de Lichinga) também escolheu Mepapa nesse dia. Claro que eu estive presente e participei dos 2 lados, aliás dos 3 lados – Maratona + D.D.S. e do lado dos nossos doentes, sentada no chão ao lado deles (e no meio deles), incitando-os a participar quanto a sua condição física lhes permita."

Ana Maria (Voluntária da APARF ao serviço dos Leprosos)

sábado, 27 de janeiro de 2018

Missão de Ocua - Mahipa

Caros amigos da APARF

Depois de várias horas de avião até Moçambique, cá me encontro por terras de Ocua, mais precisamente na Missão de Ocua – Mahipa. Já cá estou faz um mês e desde então o meu trabalho, junto com a irmã Palmira, das Missionárias da Boa Nova, tem consistido na visita às aldeias desta comunidade para diagnosticar, tratar e curar os leprosos desta área.

Iniciámos o trabalho dia 13 de Novembro com o levantamento do número de doentes. Até ao momento temos um número aproximado de 165 leprosos, entre homens, mulheres e até crianças. Um número que tende a aumentar, pois ainda não visitámos todas as aldeias. Temos encontrado casos realmente dramático num estado já bastante avançado da doença com falta de membros e feridas abertas. Dói ver esta gente chegar a este ponto sabendo todos nós que é uma doença que tem cura e que com um pouco de força de vontade é possível vencê-la. Mas no meio onde esta gente vive, sem quaisquer condições de higiene, muitas vezes sem água e onde o porco e a galinha partilham a mesma casa do dono, é muito difícil controlar a doença. E depois há toda uma componente cultural muito difícil de ultrapassar.


A Sandra com doentes de lepra a quem dá assistência


Mas não estou aqui para mudar ou impor nada, apenas tentar ajudar, dentro do possível, a superar esta doença que os vai consumindo pouco a pouco, tanto no corpo como na alma, pois muitos deles desistem de lutar e perdem a esperança de uma vida um pouco melhor.

Quero por isso pedir a vossa ajuda para que possamos todos juntos dar um pouco mais de esperança e alento a estes doentes.

Sandra Figueiredo
(Voluntária da APARF)


Doentes de lepra mutilados, porque não tiveram assistência da fase inicial da doença

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Manhãs do Chibuto (continuação...)

As mães sorriem, riem abertamente, tocam-me, algumas estendem-me as crianças. Vinte minutos em que procuro dar bom dia individualmente a cada criança, avaliar o seu aspecto, saber do seu estado. Vinte minutos intervalados com umas corridas à cozinha para mexer as papas. Estão prontas. Servir cada criança, registar na folha de presenças, e depois verificar como comem. Os sabores vão variando: baunilha, caramelo, raspa de laranja, canela… mas nem sempre esta alternância de paladares vai ajudando. Nos casos mais difíceis sou eu que dou as papas, ou então faço dupla com a mãe: uma tapa o nariz da criança, a outra enfia a colher na boca que se abre para respirar!

Depois de alimentadas vem a fase dos tratamentos: pomada nas feridas, nas conjuntivites, antidiarreicos se necessário, vitaminas para os mais carentes, etc (De tarde será tempo de conversa e conselhos, mimos e brincadeiras).

As crianças tratadas, de barriguinha cheia e medicadas e é tempo de seguir para o mercado, abastecer-me para a próxima refeição: frutas, abóbora e batata doce será a papa que se seguirá à dos cereais matinais.

Esta é a rotina das manhãs do Chibuto, rotina permeada de histórias tristes e/ou alegres (que partilharei convosco), sempre na melhor companhia: as crinaças. E sempre com o melhor apoio: a APARF e todos os que contribuem para este projecto.

Bem hajam.


Ana Maria Oliveira
(Voluntária APARF) 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Manhãs do Chibuto

7,30h: a caminho do Hospital vou sendo saudada pelas crianças que me honram com o apelido de Amiga. Não sei quem são, não sei os nomes delas. Mas somos amigas.

- Ámiga! Bom dia.
- Lichile, Amiga!

Sorrisos lindos, gestos envergonhados quando as afago… são tão bonitas!

Chego ao hospital feliz pela caminhada cheia de infantis (e não só) bons dias.

Entro no alpendre e à minha direita, na direcção oposta para onde me dirijo já está o grupo de mamãs e das crianças. Imediatamente várias mãos se erguem a fazer adeus, vários sorrisos de contentamento se desenham nestes rostos amigos. Eu retribuo e resisto à tentação de ir lá directa, mas na “cozinha” (isto é, quatro paredes negras albergando três grandes fogueiras) espera-me um panelão cheio de água quase a ferver onde irei fazer a multimistura para as crianças. E também para alguns tuberculosos e mães de prematuros, presença muito frequente no hospital.

Assim que a papinha começa a ferver, lá vou eu directa à enfermaria para o momento mais temido do dia: a consulta ao livro de óbitos. Bem! Nas últimas seis semanas só morreram três crianlas de mal-nutrição! Porque de malária, anemia grave, sida… morreram mais do dobro. Muito triste. De seguida, vou “passar revista às tropas”. Bom dia, Amiga das crianças! Bom dia mãe das crianças. Ou mais personalizado: Bom dia, amiga de Maria. E, por pura simpatia, “metem-se” comigo, imitando na perfeição o meu tom: “Prato e Xipune!” (xipune=colher, do inglês spoon). Esse será o sinal de que as papas estão prontas.
(Continua...)

Ana Maria Oliveira
(Voluntária APARF) 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Crianças "ratinhos"

São autênticos “ratinhos” algumas crianças aqui, com braços e pernas da grossura de um dedo, com tamanho de metade da sua idade. São assim os desnutridos que pedem ajuda às Irmãs.

Os dois gémeos da fotografia, não parece mas têm 5 meses, e o seu peso é o mesmo que eu e a minha irmã gémea tínhamos quando nascemos (2,6 kg e 2,4 kg).

Na Europa parece que gémeos é uma coisa rara, mas aqui parece que tudo nasce aos pares, há muitos gémeos e muitas mamãs sem leite ou com o peito encaroçado. E tudo recorre às Irmãs.

É graças a Deus e à ajuda da APARF que as Irmãs vão conseguindo dar resposta às necessidades das crianças desnutridas, dando-lhes leite em pó – próprio para a sua idade, ensinando a fazer papinhas de multimistura, dando roupinha ou atendendo a qualquer necessidade que tenham.

Os papás e mamãs agradecem muito e as crianças manifestam o seu sorriso lindo.

“Quando a criança sorri, é Deus que canta” Raoul Follereau.

Noxukuro Vanthene (Agradecemos Muito)


Comunidade das Servas de Nossa Senhora de Fátima de Mecubúri
 e Ana Margarida (Voluntária da APARF)


A Ana Margarida recupera para a vida crianças desnutridas